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Mara e Waldemar
Dalcídio
Jurandir
Mara revelou o milagre de Waldemar
Henrique. Tem na voz a quentura envolvente das nossas noites evocando
as histórias da terra; a infância do folclore amazônico, as
paisagens e as coisas que há na Amazônia. Mara vem com jeito de cunhã
e nos descobre o imenso mundo da música de Waldemar. Os bichos se
desencantam e correm no mato, o luar desperta o sortilégio musical
das lendas e dos mitos. E o índio, com seu ritmo de guerra e de paixão,
acorda todos os totens e todas as tribos da floresta desencantada.
Grande mundo o de Waldemar. O artista se esconde nesse mundo e ouve o
uirapuru, se deixa levar pelo canto da mãe d’água e pela fascinação
da boiúna ao longo dos rios fabulosos. O acauan, os tajás, os matos,
os sacis, as caboclas, a terra, tudo isso vem do mundo de Waldemar que
Mara nos revela com ritmos ingênuos de D. Sancha, da cobra grande, a
toada do boi bumbá, o baticun do uirapuru, o tambá-tajá e a alegria
da “minha terra!”.
Mara tem o seu mundo também: a sua
personalidade. Tudo nela é de simplicidade que dir-se-ia estilizada
se não fosse tão espontânea e sumarenta como os frutos brabos da
terra onde Mara nasceu.
Waldemar é profundamente lírico. Às
vezes quer velar a realidade das coisas que ele evoca com sua intensa
e inevitável emoção de poeta lírico. As músicas folclóricas são
por ele transfiguradas em lirismo de banzo, folia, trova e dança de
índio. É o interesse lírico do poeta com a sua tristeza de avatar
traindo-se ao longo dos ritmos intensos. É a nostalgia do caboclo se
lembrando da tribo que o branco trucidou. É o desespero da mãe de
terreiro se lembrando de Loanda. Nessa onda de ritmos primitivos e
estilizados Waldemar Henrique evoca uma Amazônia de lenda e de feitiço,
uma Amazônia distanciada onde jazem as tradições, nasce o folclore
e tumbam os trocanos no mato virgem. Não é a Amazônia de hoje, com
a sua espantosa miséria, os seringais abandonados, as vilas taperas,
o povo comido de febre, se matando nos castanhais e na madeira,
enfeixando timbó nos trapiches, batendo carapanã, colhendo caroços
no rio. Mas através do refinamento lírico, da espécie de destilação
lírica por que sofre a música de folclore de Waldemar há sempre um
fundo de alegria áspera e triste, de irrevelado e de selvagem. Música
do Brasil, do nosso peito, brotando na terra onde a matinta pede fumo
para o caboclo com a sua tragédia, as suas queixas e os seus deuses
com que ilude a sua esperança e o seu destino.
Mara, entre o tajazeiros em flor e os
pretos do boi bumbá ergue os braços à estrela da manhã e a Xangô.
Ninguém esquecerá a sua graça matuta, a sua voz que é um afago.
Toda a sua arte é criação da música amazônica de Waldemar. Assim
a Amazônia começou a caminhar para o mundo...
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