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Waldemar Henrique

Em 1992, Waldemar Henrique estava às vésperas de
completar 87 anos. Seu sorriso suave continuava a espelhar a alma
simples e doce. Naquele velhinho simpático, que andava apoiado em
uma bengala e atravessava com dificuldade as ruas de Belém, raros
transeuntes apressados identificariam o autor de belas canções que
marcaram a música brasileira nas décadas de 40, 50 e 60. O maestro
morreu em 1999. Se estivesse vivo, na semana passada (15 de
fevereiro) estaria completando 96 anos. Naquele ano de 1992, em uma
longa entrevista aos jornalistas Sônia Zaghetto e Marton Maués, o
maestro falou sobre sua devoção à música, as dificuldades para
consolidar a carreira e as alegrias de ser amado. Foi um momento
nostálgico, de palavras francas e ternas recordações, em que
Waldemar Henrique olhou para dentro de si mesmo e admitiu que a
velhice chegara, impedindo-o de tantas coisas. Haviam passado os
tempos ruidosos da juventude, época de "sassaricar aqui e
ali", como dizia. Dava-se conta de que envelhecia. Refletia,
então, conformado: "Os homens envelhecem como os prédios: as
paredes vão descascando, as estruturas não mais
sustentando..". Mas, espírito sábio, a tudo recebia de braços
abertos, sem permitir tristezas: "Acho que está na hora de
pagar esse tributo". Na entrevista, falou tranqüilamente sobre
a morte que se anunciava próxima e disse acreditar, em sua
lendária modéstia, que seria esquecido tão logo deixasse a vida
na Terra. Enganou-se. Waldemar Henrique viverá para sempre no
coração dos que amam a música. E ArteLivre o homenageia, com amor
e gratidão.
P, Qual a sua opinião
sobre as homenagens que lhe fazem?
R. Gosto muito. Só que me pegam de um jeito... Não tenho saúde.
Quem me dera que eu pudesse sair, brincar como antigamente. Agora já
não é como antigamente. Agora já não é a mesma coisa. Agora é
tudo "com licença, perdão"... Mas eu estou sempre
disposto para essas festas, esses gestos de simpatia, de bondade.
Recebo essas homenagens com o mesmo élan de antigamente. Acho que são
maravilhosas. Apenas não posso corresponder com a alegria que
sentia antigamente. Tudo tem a sua época. Felizmente tenho a meu
lado pessoas que me alegram, que fortalecem o meu ânimo. Já não
canto, não danço, não namoro. Então...
P. O senhor sente
falta de tudo isso?
R. Não. Porque tudo teve a sua vez, seu momento. Na sua idade,
você não pode se negar a essas coisas, mas quando você chegar à
minha idade vai dizer "chega!".
P. Maestro, como é
envelhecer?
R. Engraçado. Só me apercebi disso agora.
P. E é bom?
R. Eu não percebia que estava envelhecendo, mas nesse início
de 92 de repente me senti puxado pelo peso da idade e também por
certas circunstâncias desfavoráveis: a saúde vai cedendo, a
vista.. São vários fatores que se juntam para entristecer a gente.
Mas eu não me entristeço: acho que está na hora de pagar esse
tributo.
P. O que o senhor
pensa da morte?
R. Bem, depende da pessoa. Há pessoas que é uma pena que
tenham morrido, que nós gostaríamos que contiuassem vivos para nos
dar a sua contribuição e sua cultura. Há outros que saem da vida
e a gente nem lembra que existiram. Tenho a impressão que estou
neste grupo.
P. O senhor é
modesto...
R. Não, não me acho modesto, mas a morte é algo que tem de
acontecer...
P. O senhor acredita
mesmo que depois de morrer será logo esquecido?
R. Não sei. Depende...
P. O senhor tem
consciência exata da importância de sua obra?
R. Eu tenho consciência de que trabalhei muito para deixar uma
contribuição à nossa terra e às pessoas de Belém.
P. O senhor projetou
a sua carreira e acha que conseguiu o seu sonho?
R. Eu nunca projetei nada para mim, digo com sinceridade. Nunca
programei nada pensando em mim. Sempre fiz as coisas pensando nos
outros. Quando ia dar um concerto, sempre pensava no público e não
no meu sucesso particular. Pensava em corresponder à expectativa do
público. Era preciso que fizesse tudo bem feito. Então, ensaiava
terrivelmente uma partitura para não decepcionar as pessoas que
haviam se deslocado para me ouvir. Não se tratava de humildade e
nem de modéstia. Tratava-se de consciência, de estar consciente de
que se tem um trabalho a fazer, uma obrigação, um propósito
e amor pelas coisas. O principal é ter amor pelas coisas.
P. O senhor sempre
quis ser músico?
R. Aos cinco anos, bastava ver o piano aberto e eu já batia nas
teclas. Hoje, eu tenho um sobrinho que vem aqui em casa, abre o
piano e começa abater. E me lembra de mim.. Ele já tem oito anos e
eu tinha cinco. Minha mãe ficava falando: "Fecha esse piano,
fecha esse piano". Mais tarde uma vizinha me estimulou a
estudar e rapidamente eu aprendi, porque ela me dava duas páginas
para estudar e eu aprendia logo seis. Ela me dizia: "Não vá
adiante!", mas eu ia. Para você ver o amor que eu tinha pela
coisa. Depois eu viajei para Portugal e, quando a orquestra tocava
no salão, eu não dormia enquanto a música não parasse de tocar,
brigando com a minha babá porque eu queria ir para o salão. Quer
dizer, a minha vocação estava nessas atitudes. Hoje eu vejo jovens
tão assanhados pela música, pelo ritmo, e acredito que devemos
compreender que eles têm vocação.
P. O senhor enfrentou
barreiras à carreira?
R. Sim. Meu pai achava um desperdício que um rapaz
"perdesse tempo com esse negócio de música". Nós tínhamos
um piano em casa e ele dizia: "Sai daí, piano é para moças".
Coisa de português antigo: homem não podia sentar no piano e
"brincar de pianista". Tempos depois é que ele
compreendeu que era uma arte muito séria.
P. O senhor tinha
consciência disso e por esse motivo enfrentou o preconceito?
R. Enfrentei sem saber que estava buscando uma coisa séria.
Pensava que aquilo era uma doença, uma coisa que dá na gente e que
você está fazendo não com consciência, mas porque alguma coisa
lhe impele para aquilo, lhe puxa para aquela situação. Tudo o que
pude estudar, em termos de ritmo, som, melodia, eu estava lá.
Porque era uma coisa que me puxava, me comprometia e me animava. Eu
nunca fui convencido dessas coisas, mas fui puxado,
incosncientemente talvez.
P. Por que o senhor
elegeu o piano como seu instrumento?
R. Porque ele estava em casa e a vizinha me ensinou a tocá-lo. Mas
poderia ter enveredado por outro instrumento. No rio de Janeiro
peguei o violão, achei maravilhoso porque o violão é um piano que
a gente carrega no colo, tem uma sonoridade maravilhosa e, além da
possibilidade de acompanhar bem, tem nuances muito ricas. Então eu
passei a estudar violão, comprei um belíssimo, mas tive de optar
entre os dois instrumentos porque o piano eu estudava 24 horas por
dia. Como eu já ganhava dinheiro como pianista e era reconhecido
como tal, fiquei com o piano.
P. Que outro
instrumento o senhor gostaria de tocar?
R. Minha mãe fazia questão que eu estudasse violino, mas o
violino não me animava tanto quanto o piano. Outros instrumentos -
violoncelo, contrabaixo - eu fui estudar apenas por causa da
harmonia da composição. Tive de aprender a estrutura desses
instrumentos para usar na partitura.
P. O que significa a
música em sua vida?
R. A música representa para mim o meu alimento espiritual, de
alegria. De todo alimento que eu precisava para minha vivência, a música
era a que me trazia mais força. Eu precisava da música. Ela me
trazia alegria. Toda a minha vida passei ouvindo música. Desde os
clássicos - Bach, Haendel, Mozart - até os populares e modernos. E
optei por ser exclusivamente compositor popular.
P. Que músicas o
senhor mais gosta de ouvir hoje?
R. Há tantos compositores populares bons e quando eles acertam com
certa música, é a essa que eu me agarro.
P. Por exemplo...
R. Algumas coisas de Pixinguinha e Noel Rosa. Aqui em Belém o
Cavalero (Pedrinho Cavalero), que eu gosto muito. O Paulo André
Barata e ultimamente tenho gostado muito do capitão, que é como
chamam o Nilson Chaves.
P. Quem o influenciou
no início da carreira?
R. Villa-Lobos. Estudei praticamente todo o repertório de
Villa-Lobos quando acompanhei a cantora Maria Aparecida a Paris.
P: Como era o seu
relacionamento com o maestro Villa-Lobos?
R: Ele foi muito meu amigo. A primeira vez em que fui falar com
ele havia uma porção de gente esperando na ante-sala.
Identifiquei-me e fui convidado a entrar. Ao abrir a porta, ele
disse: "Vem cá, Waldemar. Olha aqui a tua música" e me
mostrou que já tinha nas mãos as composições impressas. Antes,
eu já havia conhecido a esposa dele - de quem mais tarde separou-se
- e trabalhava no coral que ela mantinha. Ela gostava muito da voz
da Mara e falava muito ao marido da minha capacidade de trabalho.
Villa-Lobos me tratou com muita simpatia e bondade, foi generosíssimo.
E olha que lê era duro, uma pessoa muito difícil. Aconselhou-me
muito: "Se eu fosse você, não fazia isso" e riscava a
partitura. Eu ria porque a partitura já estava impressa e não
podia mais ser mudada.
P: O senhor conviveu
com diversas personalidades artísticas. Quem mais o impressionou?
R: No piano, Madalena Tagliaferro. No canto, Bidu Sayão e Maria
Lúcia Godoy. Aqui em Belém tem a Maria Helena Coelho Cardoso, uma
voz lindíssima. Lembro que uma vez o pianista Waldemar Navarro me
telefonou no Rio de Janeiro e disse: "Waldemar, estou
descobrindo novas canções tuas através de uma cantora que veio de
Belém, é Maria Helena Coelho. Olha, eu estou ensaiando com Claudia
Muzio, que é considerada a voz mais bela da Europa, mas a voz da
Helena é muito mais bonita". Nunca esqueci disso, que a Helena
era melhor que a Claudia Muzio.
P: E sua irmã, Mara?
R: Meu relacionamento com ela era muito bom. Ela gostava de
cantar e eu achava que ela cantava bem. Nos concertos ela escolhia o
repertório e fez um carreirão comigo. Mas não demorou muito, não,
porque logo dois anos depois de despontar para o êxito apareceu um
noivo. E o casamento atrapalha a carreira artística. Ela quis casar
e eu não disse nada, mas pensei: "Eu tenho três irmãs. Por
que esse homem não escolheu aquela outra irmã para casar, mas
justamente a Mara?"
P: E o senhor, por
que não quis casar-se?
R: Uma vez veio ao meu apartamento no Rio uma pianista gaúcha,
que me falou que ia a Paris. Perguntei pelo marido e filhos e ela
respondeu: "Ele vai ficar e as crianças ficam com o pai".
Olhei para as crianças, dois amorecos, e pensei: "Como se
troca uma ilusão de ser a rainha do piano por dois amores como
esses?"Que coisa! As crianças eram muito mais importantes! Por
isso evitei compromissos. Meu compromisso era com a música.
P: A nova geração
conhece Waldemar Henrique idoso, meigo. Como era o maestro jovem?
R: Sassaricava. Gostava de passear, ir à praia. Quando fui ao
Rio é que desenvolvi minha natureza.
P: E o amor, o senhor
amou muito?
R: Eu sempre amei muito a música. Eu era uma pessoa que tinha
devoção pela música. Às vezes quando saía de um clube, me
chamavam e eu preferia ir para casa, onde me esperava uma partitura
em cima da mesa. E eu pensava: "Se eu sair com esse pessoal a música
vai ficar esperando".
P: Mas o senhor nunca
teve um grande amor, uma paixão violenta?
R: Nunca fui de loucuras. Sempre fui uma pessoa bastante
controlada, não sei se pela religião ou pela educação. Tanto que
penso muito nisso de as pessoas matarem as outras, pensarem que são
proprietárias dos outros. Nada é da gente. Sempre achei que nada
é meu. Se as pessoas querem a minha companhia certo; mas se deixar
levar como propriedade, isso nunca.
P: O senhor fez tudo
o que gostaria de fazer?
R: Fiz tudo o que me foi possível fazer.
P: Muitas decepções?
R: Não, por causa dessa maneira de pensar. Nada é meu, então
devo aceitar as coisas como elas vêm.
P: O senhor recebeu o
que deveria?
R: Parece incrível, as pessoas viviam brigando comigo porque eu
não ligava para o direito autoral. Eu achava graça, porque não
tinha paixão. Eu sempre ganhei meu dinheiro como concertista.
P: Trabalhar como
concertista era suficiente, financeiramente?
R: Vou confessar uma coisa que nunca disse a ninguém. Ao chegar
em Paris, uma senhora me falou que eu precisava ir a determinada
igreja, que não lembro o nome, fazer votos a Nossa Senhora. Ali, eu
decidi doar a Nossa Senhora tudo o que eu viesse a ter. Eu ficava
isento de posses, riquezas, uma possível esposa. Eu passaria a
distribuir aquele material de acordo com o que ela quisesse. Saí de
Paris com essa idéia de que nada era meu, tudo era dela. E me
acostumei com isso. Se alguém me pedia determinada importância, eu
dava e pedia sentia que Ela queria que eu desse.
P: O senhor, então,
não dá mesmo importância ao dinheiro?
R: Não. Quando precisava de dinheiro para uma roupa ou viajem,
inesperadamente ele aparecia. Até hoje se preciso de dinheiro é só
pensar que ele vem.
P: O senhor se
considera bem assistido na velhice?
R: Tudo o que Nossa Senhora me der está ótimo. Como tenho a
proteção de Nossa Senhora, ela olha pelo meu chá, pelo meu
cafezinho.
P: O senhor demonstra
uma grande fé...
R: A vida é muito maravilhosa para realizar tudo o que for possível
com a ajuda de um espírito muito forte. Temos que ter respeito
porque somos guiados por forças - Deus, Nossa Senhora, um anjo,
Cristo. É claro que na velhice fui acreditando muito mais. Quando
era jovem, abusava, enchia a cara. Agora o médico me proibiu
completamente de tomar até uma birita. Ah, eu tenho uma pena...
P: O senhor bebia o
quê?
R: Tudo, uma Brahma, um whisky, um champanhe. A bebida estimula
até para compor. Antes de compor dava um gole numa garrafa de
whisky que eu tinha dentro do guarda-roupa, tirava e bebia na
garrafa mesmo. Era só para dar uma força.
P: O senhor não tem
jeito de quem bebia whisky pelo gargalo...
R: A bebida era só para dar uma força, até para tomar um
banho em dias frios.
P: O senhor tem medo?
R: Não tenho medo de nada.
P: Nem de barata?
R: Não, detesto barata, tenho nojo...
P: O senhor
testemunhou os grandes avanços deste século. O mundo hoje é
melhor que o da sua juventude?
R: Não, é horrível. As condições de vida são muito más,
apesar de termos comunicação mais fácil. Mas há vaidade nas
pessoas, chefões, todo mundo quer ser chefão. Aqui no Brasil a
gente vai enrolando de qualquer jeito, acho que está tudo errado.
P: O senhor ainda
sonha?
R: Nessa idade? Nem posso dizer que quero morar na China. Daqui
vou para onde Deus quiser.
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