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Brava
Callas! Brava Maria!
"Se
você ama a música a ponto de servi-la humildemente, o sucesso
acontecerá automaticamente” – Maria Callas
Uma voz cortante, poderosa, capaz
de levar o ouvinte a abismos de paixão ou de dor lancinante. Maria
Callas é a emoção superlativa. Uma diva única, quase força da
natureza. Quem viu seus olhos expressivos, a visceral interpretação
de suas violetas, rosinas, turandots, lucias
e normas jamais voltará a se conformar somente com uma bela
voz de soprano. A indomável Callas, geniosa, intempestiva, era regida
pelos sentimentos. Em sua pele, nenhum personagem de ópera era
ficcional. O sangue fervia, a dramaticidade explodia, puro êxtase.
Butterfly era um lamento nunca ouvido, Magdalena a voz da emoção, e
Violeta morria de olhos abertos, encarando uma platéia atônita e
chocada.
Ela encantou Pasolini, Zeffirelli e Visconti, emudeceu
poderosos e seduziu milhões. Era a Grande Callas, La Divina Callas,
sobrenome que nem era seu e que criou fazendo um anagrama com o nome
do maior templo da ópera: o teatro Scala, de Milão. Paradoxalmente,
essa mulher que fazia de seu canto a expressão máxima de todos os
sentimentos humanos, foi desprezada pelo único homem que amou. A
crueldade do armador grego Aristóteles Onassis pode ser medida por
uma frase proferida quando a voz de Maria já declinava, em que
comparava sua poderosa voz a “um apito que você traz na
garganta”.
Boa
parte da atração que Maria Callas exerce sobre o grande público tem
raízes fincadas exatamente em sua biografia, permeada por
espetaculares feitos e por escândalos alimentados pela mídia.
Veja-se o caso do milionário Onassis. No auge da fama, Maria sofreu
tremendo assédio por parte do armador grego, que era casado com Tina.
Presentes luxuosos e toda sorte de mimos foram usados por Onassis para
convencê-la. Ela capitulou e mergulhou em uma relação atormentada,
onde foi submetida a humilhações, como o desprezo de Christina, a
filha de Onassis, ou o momento em que teve de depor em um tribunal
americano sobre sua participação na separação do casal Onassis.
Seu divórcio de Giovanni Battista Meneghini foi explorado à exaustão
pelos jornais, suas explosões de fúria ficaram registradas pelos fotógrafos,
sua intimidade foi devassada.
O mundo acompanhou a grã sacerdotisa
do canto quando ela descobriu amor e sexo aos 36 anos e então desejou
deixar de ser deusa e assumir uma vida mais pacata e caseira: “Só
desejo um marido, filhos e um cachorro”, declarou.
Aristo
- a forma carinhosa com que Maria tratava Onassis na intimidade –
coroou sua passagem pela vida de Callas trocando-a por Jacqueline
Kennedy quando esta enviuvou do presidente americano. Repetiu com
Jacqueline o assédio que havia feito a Maria. O trauma emocional de
Callas foi proporcional ao impacto causado pelo novo casal Onassis
Outra façanha de Maria refere-se à silhueta. Da soprano
gordinha, em poucos meses ela se transformou em uma sílfide e abriu
um debate acalorado sobre o impacto do emagrecimento sobre sua voz.
Esse episódio é apontado como uma das maiores provas de sua quase
legendária persistência, uma força de vontade assombrosa que a atraía
como ímã para todos os desafios, tanto na carreira artística como
na vida íntima.
Mas, além da curiosidade que despertava e dos escândalos que
protagonizava, Maria era uma artista fulgurante. Nada em sua biografia
se compara ao poder encantatório de sua voz. A gravação da sua mais
famosa apresentação da Norma,
de Vincenzo Bellini (1801-1835), com a orquestra do Scala, regida pelo
maestro Tullio Serafin, é um ícone da história da ópera pela emoção
e dramaticidade que emergem da voz de Maria. Norma foi o papel que
Callas mais representou: 92 vezes. A ópera toda – mas
principalmente a ária Casta Diva – consolidaram sua reputação
e sua fama. Curiosamente, a seu amor pelo canto deve-se o
resgate de Norma, que habitava um certo limbo, bem como algumas
óperas de Rossini, a quem emprestou um sopro de graça e leveza.
Inspirada
pela condução segura de Serafin, Maria fez mais: subverteu as regras
até então aceitas no canto lírico e ousou desconstruir a exagerada
especialização que se instalara. Os sopranos, em sua época, estavam
subdivididos em dramático, mezzo, coloratura, ligeiro e spinto.
Ninguém ousava romper a barreira. Maria fez isso, e logo na estréia
em Verona, em 1947, aos 24 anos. Contrariando tudo o que até se
acreditava, cantou na mesma semana Tristão e Isolda, de
Richard Wagner, Turandot, de Giaccomo Puccini, e voltou a
Wagner no papel de Brunnhilde. Um verdadeiro feito o de cantar – e
simultaneamente - o repertório de vários tipos de soprano.
Décadas depois,
em uma das famosas master classes que Callas deu na Juilliard
School of Music em Nova York, em 1971-72, ela sentenciou: "Hoje só
se fala em baixo profundo, baixo cantante, barítono-baixo ou soprano
ligeiro, soprano spinto, soprano disso, soprano daquilo. A
cantora é soprano, e basta! Um instrumentista faz os baixos e agudos.
Do mesmo modo, um cantor deve cantar em todas as tessituras".
Sua interpretação
da Tosca, de Giacomo Puccini (1858-1924), também entrou para a
história do bel-canto, principalmente na apresentação que fez no
Scala sob a regência de Victor de Sabata. Floria Tosca foi
representada 39 vezes por Callas, mas nada se compara com a majestosa
apresentação de 1953, em que Maria contracena com dois outros
cantores respeitáveis: o tenor Di Stefano e o baixo Tito Gobbi.
Curiosamente,
a Tosca ocupou especial lugar em sua vida. Maria - nascida em
Manhattan, filha de gregos - estreou na Ópera Nacional de Atenas em
1942 exatamente com a Tosca. E foi com ela que encerrou sua
carreira em 1965, em Londres.
Maria morreu
sozinha, em seu apartamento de Paris, em 16 de setembro de 1977, vítima
de um infarto. Enquanto o enterro percorria a rua Georges Bizet,
centenas de parisienses que choravam saudaram a passagem do esquife
com a saudação que emocionava Maria na saída dos teatros: “Brava
Callas!, Brava Maria!”. Na primavera de 1979, suas cinzas foram lançadas
no Mar Egeu.
Links interessantes:
The official Maria Callas
Web Site - www.callas.it
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