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Emília vende o rinoceronte

Monteiro Lobato 

        Emília tratou de procurar outro freguês. Foi à cozinha e propôs o negócio à tia Nastácia. A negra, que estava depenando uma galinha, nem a ouviu no começo; depois, como Emília amolasse, disse apenas, em tom de brincadeira:

        - Era só o que faltava, esse bicho de nome esquisito aqui para meter medo na gente! Se fosse uma chocolateira eu fazia negócio, porque a minha está vazando.

        Para Dona Benta era inútil oferecer. A boa senhora tinha horror a bichos, sobretudo depois que teve de meter-se em pernas de pau no dia do assalto das onças.

        O Visconde seria capaz de aceitar, porque os fidalgos adoram as grandes caças – mas o pobre Visconde pertencia à classe dos fidalgos arruinados, que só possuem o seu título de nobreza. Nunca teve de seu nem sequer um tostão furado.

        Narizinho... Rabicó...

        Estava Emília na maior indecisão quando a Cléu apareceu.

        - Cléu – disse a boneca – tenho um negócio excelente que ando a propor a todos e ninguém aceita.

        Pedrinho não acredita, tia Nastácia não quer, o Visconde não tem dinheiro, com Rabicó e Narizinho ainda não falei.

        - Que espécie de negócio é? – perguntou a menina. – Venda ou troca?

        - Venda ou troca de um, animal preciosíssimo que descobri na mata.

        - Vai ver que é um rinoceronte! – surgeriu Cléu.

        Emília ficou admiradíssima.

        - Como você sabe? Como adivinhou?

        - Esperteza – respondeu Cléu. – Estou lendo nos seus olhos, Emília, que você é dona dum enorme rinoceronte de verdade.

        - Sério?

        - Seriíssimo!

        Emília foi examinar-se ao espelho e achou que realmente estava com a cara de dona de rinoceronte. Os sábios chamam a esse fenômeno “sugestão”.

        - Bem – disse Emília, de volta do espelho. – Você adivinhou, Cléu. Tenho mesmo um rinoceronte para vender. Quer comprar?

        - Não. Mas posso associar-me a você no negócio. Arranjarei jeito de vendê-lo a Pedrinho e metade do dinheiro é meu. Serve?

        Não quero vendê-lo por dinheiro e sim trocá-lo pelo carrinho de cabrito.

        - Nesse caso eu terei metade do carrinho, as rodas, por exemplo – lembrou Cléu, mais para amolar a boneca do que por desejar realmente possuir as tais rodas.

        Emília refletiu uns instantes. Depois disse:

        - E você mais tarde me dá de presente as rodas?

        Cléu teve dó da afliçãozinha dela

        - Dou, sim, dou desde já. Estou brincando. Não preciso, nem quero roda nenhuma. Ajudarei você a vender o rinoceronte sem cobrar comissão nenhuma.

        Emília deu dois pinotes – e as duas foram ter com Pedrinho, que ainda estava lendo o jornal.

        - Escute, Pedrinho – disse a boneca, tirando-lhe o jornal das mãos. – Vou ser franca. O tal rinoceronte que fugiu do circo existe, sim, e por um acaso descobri o lugar onde ele está. Juro! Ora, se você nos prometer dar o carrinho de cabrito em troca, o negócio está feito.

        Pedrinho estranhou aquele nós.

        - Nós? – repetiu ele, admirado – nós, quem?

        - Eu e Cléu. Ela é sócia, tem metade do rinoceronte.

        O tom com que Emília falava começou a convencer o menino.

        - Sério, Emília? Está falando sério?

        - Nunca na minha vida falei tão sério, Pedrinho. Sei onde está o rinoceronte fugido, mas só direi se você me der...

        - Nos der... Corrigiu Cléu.

        - Sim, se você nos der o carrinho.

        Um rinoceronte de verdade por um carrinho de cabrito era o melhor negócio do mundo. Pedrinho não vacilou um instante.

        - Pois está fechado! – gritou ele. – Onde anda o bicho?

        - Na Mata dos Taquaruçus.

        - Como o descobriu, Emília?

        - Os meus besouros espiões são uns amores. Tudo o que se passa no mato eles correm a me contar. Inda há pouco vieram muito assustados, dizer do aparecimento dum animal tão enorme, assim, de chifre único na testa.

        - E percebi que se tratava do rinoceronte fugido.

        Era espantoso aquilo. Pedrinho sentiu o seu coração palpitar com violência. Um rinoceronte! Um rinoceronte de verdade, morando no sítio de Dona Benta! Não podia haver nada mais fantástico...

        - Resta agora decidir o que faremos dele – murmurou o menino, atrapalhado. Matá-lo, caçá-lo, prendê-lo, devolvê-lo ao circo, amansá-lo, conservá-lo?... Que fazer?

        - Acho que vocês devem amansá-lo e fazê-lo entrar para o bandinho – sugeriu Cléu. – Sempre achei que fazia muita falta aqui um bicho assim, dos grandes.

        - Impossível, Cléu – disse Pedrinho. – Esses animais, além de ferocíssimos e traiçoeiros, são incomodamente grandes. Não cabem em parte nenhuma. E depois há ainda vovó e tia Nastácia – as duas maiores medrosas do mundo. Se conservarmos o rinoceronte aqui no sítio, elas se trancarão em casa pelo resto da vida. São bobíssimas. Mas é coisa que veremos depois. Agora temos de ir espiar o bicho.

        Guiados pela Emília, foram os três ao encontro dos besouros, que justamente naquele instante estavam voltando a si do longo desmaio.     

(In “Caçadas de Pedrinho”)


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