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Sem remédio – Raduan Nassar

Reivaldo Vinas

Há um conto de Raduan Nassar, um dos últimos que ele escreveu, que considero de uma singeleza arrebatadora e cruel. Eu o li por acaso no número 2 da revista Cadernos de Literatura Brasileira, publicada pelo Instituto Moreira Sales. Chama-se Hoje de madrugada e revela por que o autor de Um copo de cólera, ao lado da paulista Hilda Hilst, de Com meus olhos de cão, é seguramente um dos maiores escritores vivos da literatura brasileira e um dos maiores romancistas de todos os tempos.

Sou tomado de uma admiração profunda por Raduan Nassar, grandemente pelo que ele escreve – e muito mais ainda pela indiferença com que ele hoje encara esse pavão de seda que é o texto literário; pelo fato de ele sinceramente considerar, como aquela nossa amiga de escrita deslumbrante, que “toda a literatura não vale a vida de um cachorro”.

Desde já esclarecerei que aqui não farei uma crítica. Deus me livre e guarde! O tempo e a maturidade ensinaram-me que toda crítica é um cacete. Farei, se me permitirem, um louvor, um canto, um cântico, qualquer coisa, menos crítica. E se me permitirem mais, direi por que Hoje de madrugada deixou-me trêmulo e tonto. Apenas isso.

O conto descreve um encontro de minutos, num quarto fechado, entre marido e mulher. O suficiente, no entanto, para ser o retrato contundente de uma  desilusão, o relato do desencanto asfixiante de um casal cuja relação morre “sem conserto, sem remédio, de tédio”, como naquela música de João Bosco e Aldir Blanc.

Mas isso importa pouco, porque Raduan é daqueles escritores que tornam inquestionável a afirmativa de que a literatura não é o que se conta, mas o modo como se conta. E dessa forma, em muitos momentos importa menos o que dizem (na verdade, o que escrevem) de si para si as personagens, a faca afiada que esgrimam e com que se desfiam mutuamente. Vale muito mais o jogo entre silêncio e suspensão, a fenda insondável do não-dito em que o leitor se insere e pensa meu Deus, como ele concebeu isso?

É o imaginar a tensão nas vozes das personagens que nos faz adivinhar-lhes as lágrimas, ou o que delas resta, e nos leva a lastimar o que sobrou, em meio às amarguras, daqueles seres de ficção ali a nossa frente, seres puramente imaginados, mas tão reais em cada um de nós, quando lemos a sua desventura, que somos dentro em pouco um deles e seu coração sangrando, ou pelo menos um deles em algum momento de nossas vidas também aos pedaços.

É isso o que constrói a legítima literatura, sem penduricalhos, sem flâmulas. É isso o que constrói Raduan Nassar. Outros podem dizer de suas metáforas, de sua estrutura narrativa fluida como a fala de uma confidência, do efeito da sintaxe de frases curtas que desconcertam. Mas o que fica soando no ouvido, n’alma, pr’além dos efeitos da linguagem, é o que fez a própria linguagem com a vida, transformando pela leitura o que somos no que estamos cotidianamente aspirando a ser; construindo as nossas vidas em vidas que queríamos ter vivido, na intensidade das dores, na consolação das amizades, na fascinação dos amores.

Hoje de madrugada compõem-se de cinco/seis pequenas páginas. Diminuto palco para tão grande peça. Raduan nos oferece um texto claro, exato, contundente:

 

“O que registro aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos de minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enégicos em outros tempos”.

 

De cara, Raduan apresenta sua história dentro do tempo mágico literário com que dá título ao conto. Esse “hoje de madrugada” que ele registra é no fundo um não se sabe quando. A idéia que se tem é a de que o texto foi escrito logo após o desenlace do acontecimento, logo que a mulher do narrador, derrotada, braços caídos, deixa o quarto “feito sonâmbula”.

O “hoje” deixa de ser palavra periférica, acessória, para se tornar fundamental não só à frase, mas também à toda a narrativa, pois impõe a ela uma atualidade permanente.

E há já no parágrafo descrito o instante de estranhamento caro a toda grande escritor, aquela frase (ou palavra) de impacto que é como um rasgo de trompete numa ária monocórdia: “Descalça, entrava aqui feito ladrão”, que no caso em tela conjuga o inusitado da imagem de apelo visual (dos pés descalços) ao sentido perigoso e insultante da palavra “ladrão”, que desconcerta e desconcentra o leitor que seguia a trajetória de sua leitura até então sem surpresa nem embraço.

Todo o conto é matéria de sutilezas, de achados psicológicos nem um pouco pedantes cuja missão é envolver o leitor na atmosfera de tensão hesitante e de desejo malcontido da esposa diante da insensibilidade e distanciamento do marido impenetrável; um drama conjugal silencioso, construído de forma magistral na seqüência que descrevo:

“Não me mexi na cadeira quando percebi que minha mulher abandonava o seu canto, não ergui os olhos quando vi sua mão apanhar o bloco de rascunho que tenho entre meus papéis. Foi uma caligrafia rápida e nervosa, foi uma frase curta que ela escreveu, me empurrando o bloco todo, sem destacar a folha, para o foco dos meus olhos: ‘vim em busca de amor’ estava escrito, e em cada letra era fácil de ouvir o grito de socorro. Não disse nada, não fiz um movimento, continuei com os olhos pregados na mesa. Mas logo pude ver sua mão pegar de novo o bloco e quase em seguida me devolvê-lo aos olhos: ‘responda’ ela tinha escrito mais embaixo numa letra desesperada, era um gemido. Fiquei um tempo sem me mexer, mesmo sabendo que ela sofria, que pedia em súplica, que mendigava afeto. Tentei arrumar (foi um esforço) sua imagem remota, iluminada, provocadoramente altiva, e que agora expunha a nuca a um golpe de misericórdia. E ali, do outro lado da mesa, minha mulher apertava as mãos, e esperava. Interrompi o rabisco e escrevi sem pressa: ‘não tenho afeto para dar’, não cuidando sequer de lhe empurrar o bloco de volta, mas nem foi preciso, sua mão, com a avidez de um bico, se lançou sobre o grão amargo que eu, num desperdício, deixei escapar entre meus dedos. Mantive os olhos baixos, enquanto ela deitava o bloco na mesa com calma e zelo surpreendentes, era assim talvez que ela pensava refazer-se do seu ímpeto”.

Dámaso Alonso afirmou a certa altura (recebendo ataques violentíssimos dos estruturalistas por causa disso) que a criação literária era insondável e um enigma; que só era possível desvendar os segredos do texto literário até certo ponto. Depois disso, era um salto sobre o abismo. Essa sua afirmação destruía a pretensão científica dos teóricos da literatura, que até hoje acreditam poder esclarecer o que torna um texto verdadeiramente literatura (a chamada literariedade), e infernizava a vida dos críticos, porque deixava ao inexplicável a razão da qualidade da obra dos gênios.

É uma interessante polêmica, bem-vinda para um comentário como este sobre Raduan e sua escritura. Muitas vezes me pergunto, entre uma e outra taça de vinho, o que me estremece nessa passagem de Nassar, se a técnica literária, se a humanidade e a vida pulsante, ou o gelo dessa relação presenciada só pelas paredes. Creio que tudo isso e mais aquele insondável de que fala Alonso. E o salto sobre o abismo.

Raduan publicou apenas dois livros que o consagraram: Lavoura arcaica e Um copo de cólera (este recentemente transformado em filme, que me abstive de assistir temendo a decepção), ambos publicados pela Companhia das Letras. A editora a duras penas conseguiu reunir cinco contos de Nassar, escritos há tempos, num livrinho intitulado Menina a caminho, magnífico também, vencedor do prêmio Jabuti do ano passado. Traz, curiosamente, o Hoje de madrugada.

Há dezesseis anos, Raduan Nassar abandonou a escrita e foi criar bois e plantar feijão no interior de São Paulo. Aceita dar entrevistas, desde que não se fale em literatura. Uma maneira inteligente de afastar jornalistas, mas também um modo peculiar de dizer que isso de escrever romances e contos é de uma inutilidade que não vale o milho de suas galinhas, o farelo de seus porcos.

Bravo!

 

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