|
Herdeiros
de Monteiro Lobato lutam para romper contrato com a Brasiliense
Confusões no Sítio do Pica-Pau-Amarelo
Pendenga judicial dificulta edição atualizada do autor e
editor paulista
Adriane
Perin
Enquanto
os herdeiros de Monteiro Lobato brigam judicialmente com a
editora Brasiliense, os personagens da mais famosa história do
escritor, os moradores do Sítio do Pica-Pau-Amarelo, prometem
voltar mais fortes do que nunca, contando com a estrutura tecnológica
da Rede Globo, que vai trazê-los de volta à televisão no próximo
ano. A tagarela Emília e seus amigos Narizinho, Pedrinho, Tia
Anastácia, Visconde de Sabugosa, Cuca, Dona Benta, Saci e Tio
Barnabé - os visitantes mais estranhos que pintam no universo
fantástico do Sítio -, devem voltar a alegrar a infância dos
brasileirinhos do mesmo jeito que fizeram no final da década de
70 e início da de 80. As informações são da família do
autor, já que a emissora de tevê não está divulgando mais
detalhes sobre o assunto.
Sem
informações sobre a produção, os fãs estão tendo que se
contentar com um cenário nada estimulante, recheado de questões
jurídicas e disputas econômicas veladas, que contribuem para
tirar o foco do principal: a obra de um dos mestres da
literatura brasileira infantil.
A
confusão judicial começou quando a editora Brasiliense -
detentora dos direitos de publicação da obra de Lobato desde
1945 - lançou Reinações de Narizinho - No Reino das Águas
Claras, em 1998. A edição traz um glossário de palavras da época
e foi dividida em três volumes. O engenheiro Jorge Kornbluh -
representante dos descendentes do autor - diz que Reinações de
Narizinho, sem os subtítulos, é um livro organizado pelo autor
em 1931 e publicado pela editora Nacional, reeditado pela
Brasiliense e com supervisão do escritor. "No Reino das Águas
Claras corresponde a aproximadamente 1/3 do Reinações de
Narizinho. Isso é contrafação (termo técnico para plágio)
porque pela lei nenhum editor pode modificar um livro sem a anuência
expressa do autor ou seus representantes, o que não foi
feito", diz.
A
família entrou com uma ação de busca e apreensão, mas decisão
recente considerou-a improcedente, já que "o exame das cópias
demonstra a preservação do texto, e está longe de ferir
intencionalmente a obra, apenas propicia facilidade na compreensão",
segundo informa Eunice Paiva, advogada da Brasiliense.
"As
ações foram iniciadas com o falso pretexto de que a editora não
estaria pagando os direitos", comenta a advogada,
esclarecendo que os pagamentos trimestrais de R$40 mil estão
sendo feitos em juízo. "Eles ficarão numa situação difícil,
pois a editora terá direito a indenização por danos morais já
que a foi acusada de um crime que não cometeu", diz Paiva.
A
queda de braço vai continuar, pois o engenheiro diz que a família
decidiu parar de brigar pela apreensão. "Mas estamos
brigando firme no processo de contrafação. A editora vai ter
que pagar perdas e danos e mais uma multa já definida em juízo",
comenta Kornbluh. Ele apresenta outras três razões para ter
desencadeado a polêmica. Problemas na prestação de contas
feita pela editora, que a família considerou não corresponder
à realidade, e falta de investimentos publicitários e gráficos.
"O próprio Caio Prado (célebre editor da Brasiliense, já
falecido) disse que Lobato não precisa de publicidade, mas se
levarmos em conta o crescimento populacional neste período, é
necessário sim", pondera o representante.
Quando
o assunto é a volta do Sítio do Pica-Pau-Amarelo à televisão,
no entanto, o clima pesado se esvai. "Vemos com grande
esperança essa iniciativa", comenta Kornbluh, informando
que o contrato dá o direito de licenciar a obra de Lobato para
todas as aplicações - com exceção de livros. "A Globo
pode inclusive licenciar outras empresas para adaptar Lobato
para o cinema".
(Gazeta
do Povo/Caderno G, Curitiba-PR, 06/08/2000)
|