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A Canção de Lawino
Okot p'Bitek

Meu marido leu muito, com os Brancos
Leu tudo, em profundidade
É tão instruído quanto os Brancos
Mas a leitura o destruiu
Separou-o de seu povo.
Ele é como um tronco
Sem raízes
Ele objeta tudo o que é acholi
E diz
Que os costumes dos Negros
São Negros
Porque seus olhos rebentaram
E ele usa óculos pretos
E em sua casa há uma escuridão de floresta!
 
A casa de meu marido
É uma floresta de livros!
Alguns deles são imensos,
Grandes como as árvores tido.
Alguns deles são velhos
Suas casas se soltando
E têm cheiro forte;
Outros são finos e moles
E outros têm dorsos
Duros como os troncos de rocha
Das árvores poi
Alguns são verdes,
Outros rubros como sangue,
Outros pretos e oleosos
Com dorsos que brilham
Como a serpente venenosa ororo
Enrodilhada em cima de uma
Árvore.

 Alguns têm figuras no dorso,
Rostos de homens e mulheres que parecem bruxos
Barbados, orgulhosos, com
Grandes barrigas,
Com faces encovadas e ares
Rabugentos, vingativos,
Figuras de mulheres e de homens
Há muito tempo mortos

 A mesa de meu marido é recoberta
De uma pilha assustadora de papéis.
Com plantas gigantescas
Crescendo nas florestas
Ou a árvore kituba
Que mata as outras árvores,
Assufoca
A casa de meu marido
É uma enorme selva de livros.
Ela é escura, tudo nela é diluído,
Um vapor quente, espesso,
Envenenado,
Ergue-se do chão
E se mistura à penetrante umidade
do ar
e às gotas de chuva que se juntam
Nas folhas.
Sufoca-se
Quando se fica lá por muito tempo,
Arruína-se a língua e o nariz
A ponto de não se poder mais
Sentir o refrescante odor do óleo
de sésamo
Nem o gosto do malakwang.


   O poeta Okot p'Bitek nasceu em Gulu, a maior cidade acholi de Uganda, in 1931. Ainda muito jovem, começou a escrever. Em 1958, permaneceu na Inglaterra após um torneio de futebol (ele jogava na seleção de futebol de seu País) a fim de continuar sua educação. Graduou-se em Educação pela Universidade de Bristol e em Direito pela University College of Wales.
»No começo dos anos 60 estudou antropologia social em Oxford. Voltou a Uganda para ensinar na Universidade Makerere, em Kampala. Em 1967, foi lecionar na Universidade de Nairobi. Morreu de uma infecção no fígado em 1982.
   Em 1953, p'Bitek escreveu sua primeira novela, Lak Tar (Dentes Brancos). É a história de um jovem acholi que deve trabalhar fora de casa para arrumar dinheiro para um rico casamento, e só então poderá casar. Depois de trabalhar em Kampala e em uma plantação de açúcar, ele volta para casa com apenas uma pequena parte do dinheiro necessário. Em sua viagem de volta, é assaltado e volta para Gulu sem coisa alguma.
   Em 1969, a Canção de Lawino foi publicada. Foi escrita em estilo de uma tradicional canção acholi. É o lamento de uma esposa acholi sobre seu bem-educado marido, que rejeita as tradições e idéias acholi, substituindo-as pelas do ocidente. Muito da raiva de Lawino é direcionada para a amante do marido, que incorporou esses valores e costumes. Na Canção de Ocal, o marido responde a Lawino, depreciando os valores africanos e enaltecendo as virtudes e idéias da sociedade européia. O debate entre Lawino e Ocal reflete a discussão que ganha espaço na África sobre as implicações da adoção da cultura e dos ideais ocidentais. »Outros trabalhos, incluindo A Canção de um Prisioneiro (1971) e a Canção de Malaya (1971) foram escritos no mesmo estilo poético.Okot p'Bitek tem sido criticado por outros escritores africanos, inclusive Ngugi wa Thiong'o, por não abordar adequada e profundamente as causas e problemas africanos. Okot, porém, acreditava que seu trabalho, como toda boa literatura africana, tinha "profundas raízes humanas."

Clique aqui e veja algumas fotos obtidas no site www.africa.com.

 

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