A
poesia e o nosso tempo (trechos
)
de MURILO MENDES
Publicado no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, de 25 de
julho de 1959, este artigo de MURILO MENDES, até hoje inédito
em livro, é surpreendente no que diz respeito à lucidez do
autor que falava em "planetização de fatos e idéias"a
partir da ciência e da tecnologia.
Nossa época, nascida sob o signo do relativismo, se
distingue em boa parte pela flutuação e instabilidade das idéias.
Hoje é difícil, se não impossível, fixar um critério
seguro, no que se refere à validez de escolas e estilos literários.
O que agora parece moderníssimo torna-se
"superado", datado, em pouco tempo. Nenhum de nós
viverá 500 anos para saber o que vai ficar da imensa produção
literária da nossa época.
Além disso, entramos numa
fase da história muito diferente das que nos precederam.
Somos os primitivos da era atômica, as primeiras testemunhas
dum universo em elaboração, que geme com as dores do parto.
Em pé nos rios de asfalto, assistimos à queda de Babilônia.
Suspendemos as nossas liras de ferro nestes salgueiros de
hoje, que são os monumentos de concreto armado.
O futuro da literatura acha-se, pois, intimamente
ligado à fisionomia deste mundo novo que se constrói.
Podemos entretanto arriscar uma profecia: provavelmente se
voltará a acentuar o caráter "cósmico" da poesia.
De fato, caminhamos para um tempo e um espaço em que a medida
dominante será a da universalidade; caminhamos para uma
planetização de fatos e idéias, de que a ciência e a técnica
oferecem os sinais mais evidentes.
Não considero o artesanato literário
um fim em si, mas um meio de comunicação escrita. Em minha
poesia procurei criar regras e leis próprias, um ritmo
pessoal, operando desvios de ângulos, mas sem perder de vista
a tradição. Restringir voluntariamente meu vocabulário,
procurando atingir o núcleo da idéia essencial, a imagem
mais direta possível, abolindo as passagens intermediárias.
Certo da extraordinária riqueza da metáfora - que alguns
querem até identificar com a própria linguagem -, tratei de
instalá-la no poema com toda a sua carga de força.
Preocupei-me com a aproximação de elementos
contrários, a aliança dos extremos, pelo que dispus muitas
vezes o poema como um agente capaz de manifestar
dialeticamente essa conciliação, produzindo choques pelo
contato da idéia e do objeto díspares, do raro e do
quotidiano.
Atraído simultaneamente pelo terrestre e o
celeste, pelo animal e o espiritual, entendi que a linguagem
poderia manifestar essa tendência, sob a forma dum encontro
de palavras extraídas tanto da Bíblia como dos jornais;
procurando mostrar que o "social" não se opõe ao
"religioso".
Persegui sempre mais a
musicalidade que a sonoridade; evitei o mais possível a ordem
inversa, procurei muitas vezes obter o ritmo sincopado, a
quebra violenta do metro, porque isso se acha de acordo com a
nossa atual predisposição auditiva; certos versos meus são
os de alguém que ouviu muito Schönberg, Stravinski, Alban
Berg e o jazz.
Empreguei freqüentemente a forma elíptica,
visto ser uma tendência acentuada da poesia moderna; de resto
não cria uma ruptura entre o poeta e o leitor, antes obriga
este a uma disciplina mental, ensinando-lhe a ler nos
intervalos, a encobrir analogias e paralelismos. E se o leitor
é estúpido também não vale a pena escrever claro demais.
Sendo de natureza impulsiva e romântica, cedo
percebi que no plano da criação literária devia me impor um
autocontrole e disciplina. Tendo em conta esta minha primeira
natureza, julgo ter feito um trabalho de verdadeiro polimento
de arestas, pois se os relacionar à minha contínua
necessidade de expulsão, meus textos são até muito construídos
e ordenados.
Sou contra a idolatria da
linguagem; de resto sou contra qualquer idolatria. Não creio,
repito, no artesanato literário como fim: é precisamente uma
técnica de comunicação. Que nos diz hoje, por exemplo, a
habilidade virtuosística dos Banville, dos Heredia etc.? Que
nos diz a arte pela arte? Acho errado que um poeta atual não
colha os frutos do grande movimento de renovação da técnica
do verso operado em nosso século; que renegue a revolução.
Cuidar do artesanato,
desenvolver ao máximo a ciência da linguagem, de acordo;
agora meter a poesia num sapato chinês, isto nunca.
Penso que poesia deve
propor não só um conhecimento, mas ainda uma transfiguração
da condição humana, elevando-nos a um plano espiritual mais
alto. Realizar isto sem ênfase, de acordo com os rumos atuais
da estilística, eis o problema.
Penso que todos os homens possuem
o germe da poesia. Nem todos, porém, sabem ou podem comunicar
a poesia em forma persuasiva. A missão particular do poeta
consiste em desvendar o território da poesia, nomeando as
coisas criadas e imaginadas, instalando-as no espaço da
linguagem, conferindo-lhes uma dimensão nova.
Além de recorrer ao seu tesouro pessoal, à sua
vivência, o poeta se inspira no inconsciente coletivo, rico
em símbolos, imagens e mitos. Da linguagem universal extrai a
sua linguagem específica. A linguagem, ao mesmo tempo que
informa o poeta, revela-lhe sua fisionomia pessoal.
Resumindo, pode-se dizer que a operação poética
é baseada em linguagem, afetividade e engenho construtivo. O
poeta escreverá, portanto, para manifestar suas constelações
próprias.
Desde muitos anos insisto em que a poesia é uma
chave do conhecimento, como a ciência, a arte ou a religião;
sendo portanto óbvio que atribuo um significado muito
superior ao de simples confidência ou de jogo literário.
Diversas são as faces da poesia, tal como se tem esta
revelado através dos séculos. Que o instrumento básico da
poesia é a linguagem, não há a menor dúvida; tornando-se
supérfluo mencionar o conhecido diálogo de Mallarmé com
Degas.
Já sabemos que é impossível dissociar forma e
idéia. Agora, o que se torna mais difícil, dado o número
considerável das experiências de linguagem, bem como de
teorias da poesia surgidas nos últimos 100 anos, é atribuir
a esta ou àquela teoria um caráter de verdade estética
total, pois os antigos denominadores comuns, as regras clássicas,
foram substituídos, alterados ou mesmo destruídos.
Considerando-se os movimentos de poesia somente em função da
sua capacidade de reagir aos anteriores, incorremos no erro crítico
que consiste em julgar as obras literárias apenas como
documentos de determinada geração. Bem entendido, isto não
implica que eu negue as ligações de tais obras com o tempo.
Murilo Monteiro Mendes nasceu
em 13 de maio - "dia do aniversário da abolição da
escravatura", como ele gostava de notar - de 1901, em
Juiz de Fora (MG). Mal completara um ano, morreu-lhe a mãe.
Aos nove anos, o mundo parou para ver a passagem do cometa
Halley. Segundo Murilo, foi a visão do cometa que "o
despertou para a poesia". Começou a Faculdade de Farmácia,
abandonando o curso logo no segundo ano. No colégio interno
de Niterói, iniciou a atividade literária. Comunicou à família
que se recusaria a continuar estudando. Virou problema: o
jovem que queria ser poeta.
O pai e a madrasta tentaram colocá-lo em algum
emprego. Tentativas inúteis. Em 1921 foi morar no Rio de
Janeiro, com um irmão, que conseguiu empregá-lo como
arquivista de uma repartição pública. Colaborou em alguns
jornais e, em seguida, na Revista de Antropofagia. Seu
primeiro livro de poesia - Poemas - recebeu o prêmio
Graça Aranha. Em 1934 passou por grave crise religiosa que o
fez reassumir o cristianismo em que fora criado e que
abandonara. Depois de duas viagens à Europa, fixou-se na Itália
em 1957, lecionando cultura brasileira na Universidade de
Roma. Teve uma vida longa, publicou quinze títulos e deixou vários
originais inéditos ao morrer em 13 de agosto de 1975 aos 75
anos, na cidade de Lisboa, onde foi enterrado.
Foi um dos mais
importantes poetas da Segunda fase do Modernismo. Fez sua obra
em diversos períodos com diversas características, chegando
até mesmo a produzir poesias alinhadas aos processos de
vanguarda dos anos 70. Enquanto funcionário público. Suas
primeiras obras são tipicamente modernistas no começo, mas
quando converteu-se ao catolicismo sua obra mudou. Nessa fase
já tinha influências cubistas. Por toda a vida seu estilo
mudou muito, passando da irreverência inicial ao rigor e a
suas características vanguardistas.
É crescente o interesse por seu trabalho,
o que se verifica pelos estudos sobre seus textos e pelo número
cada vez maior de teses universitárias dedicadas à sua obra.
Além dos livros de poemas, publicou muitos textos em prosa,
como o volume de memórias A idade do serrote (1968) e
numerosos artigos sobre artes plásticas e literatura.
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