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MONTEIRO LOBATO
Reinações
de um esgrimista
A
literatura infantil de Monteiro Lobato é, toda ela, um campo
fecundo onde realidade e ficção executam duetos harmoniosos.
Perseguido e preso por suas idéias sobre o petróleo como
alternativa econômica para o Brasil e lembrado por seus
vigorosos artigos contrários a algumas experiências estéticas
incensadas pelos modernistas da Semana de 1922, Lobato construiu
na literatura infantil um arsenal de pequenas obras-primas de
encanto e seriedade que desde a segunda década deste século
vem imprimindo sua marca nos sonhos dos brasileiros. Os méritos
do escritor ultrapassam em muito os do bom contador de histórias:
seus personagens são cuidadosamente elaborados e os enredos
tecidos com paciência maternal.
No que classificou como “literatura geral” para
diferençar as obras destinadas aos adultos das dedicadas às
crianças, Lobato apresenta escritos atraentes em que se aliam
simplicidade e elegantes construções verbais. Mais que a
elaboração responsável do texto, seu segredo residia em dar
um toque de humanidade e ternura a tudo quanto fazia.
“Negrinha”, “Marabá” e “Colcha de Retalhos” trazem
esse tom de sensibilidade florescendo, jogo simpático que os
escritores de talento costumam utilizar para emocionar o leitor.
Todos os personagens fixos do Sítio do Pica-pau Amarelo
espelham tipos humanos brasileiros. Em leituras resumidas, a
boneca Emília, com sua sinceridade quase cruel, é o
instrumento adequado para Lobato transmitir seus “recados”.
O Visconde de Sabugosa personifica os “sábios” que rejeitam
as verdades não contidas nos livros. A dupla de irmãos
Pedrinho e Narizinho espelha a curiosidade infantil que
impulsiona o homem em direção a descobertas e progresso.
A adorável Dona Benta é o símbolo do adulto de mente
aberta que aceita a liberdade imaginativa dos pequenos e os
estimula a evoluir. Tia Nastácia, ao contrário, embora
bonachona e alegre, reflete o adulto ignorante, sempre a
procurar motivos sobrenaturais em tudo o que se lhe apresenta
diferente do conhecido cotidiano.
Mas há outras interpretações para os personagens do sítio.
Emília, por exemplo, esse quase alter-ego de Lobato. Seu
sarcasmo esplêndido, sua ironia perfurante e sua atitude
provocadora fazem da bonequinha de pano um dos mais instigantes
personagens da literatura infantil produzida no Brasil.
Há muito descobriu-se a sedução de Emília. Quando a
Rede Globo levou ao ar um seriado baseado na obra de Lobato, não
sem razão a personagem que mais destaque obteve junto ao público
foi justamente a boneca, mesmo apresentando na televisão uma
dose de antipatia maior do que os livros deixam entrever.
O sítio tem encantos outros além da boneca teimosa e
petulante. O Visconde de Sabugosa será eternamente símbolo da
elegância e circunspecção. D. Benta atravessou mais de meio século
a oferecer às crianças do Brasil os encantos do aprendizado.
Quem, entre os que leram a obra de Lobato, deixou de invejar
Pedrinho e Narizinho, livres a percorrer os caminhos do sítio
de magia onde se podia caçar onças, aprisionar sacis em
garrafas, ouvir impunemente o canto da Iara e, depois de
presenciar a execução de todas as tarefas de Hércules, voltar
célere para os inigualáveis quitutes de tia Nastácia?
Do anedotário da literatura brasileira consta que, ainda
fazendeiro, Monteiro Lobato, indignado com as freqüentes
queimadas que assolavam as matas das fazendas circunvizinhas,
escreveu ema carta à seção de “Queixas e Reclamações”
do jornal “O Estado de São Paulo”. A vigorosa missiva –
intitulada “Velha Praga – foi publicada com destaque pelo
jornal e alcançou grande repercussão. Diante disso, o então
fazendeiro sentiu-se estimulado a prosseguir escrevendo. Da série
de artigos que se seguiram, “Urupês” destacou-se pela séria
polêmica que gerou em torno do personagem Jeca Tatu. Duas
correntes disputavam a figura do Jeca: os que desejavam vê-lo
como símbolo maior do caipira brasileiro, e outros que lhe
atribuíam exagero e falsidade. Rui Barbosa encarregou-se de
consagrar o Jeca em um de seus inigualáveis discursos,
contribuindo decisivamente para que Lobato dedicasse seus dias
à literatura.
Em sua literatura destinada aos adultos, ao manejar a língua
portuguesa com a graça de um espadachim, Lobato também se
valeu de outra característica dos esgrimistas: fez da palavra
instrumento perfurante. Seu verbo desapiedado aponta as misérias
que ainda hoje pululam pelo País: revolvia feridas, criticava
com a crueldade e ironia para mostrar aos homens de seu tempo a
propriedade de suas idéias avançadas sobre questões econômicas
e sociais . “A Luta pelo Petróleo”, “O Ferro” e
“Problema Vital” são bons exemplos dessa literatura
esgrimista, luta quixotesca contra a ignorância, a manipulação
das idéias e o pedantismo de uma geração.
Nos dias presentes,
uma dolorosa constatação invade os cultores da obra de
Monteiro Lobato: malgrado a atualidade da esmagadora maioria de
suas obras, o escritor vem sendo paulatinamente preterido pelas
novas gerações. A explicação dos que se dedicam a examinar o
fenômeno é simples: uma distorção faz com que se acredite
que a linguagem, os enredos elaborados e os textos relativamente
longos de Lobato não seriam muito bem assimilados pelas crianças
de hoje, na faixa dos seis a dez anos, aproximadamente, muito
mais fascinadas pelas novidades eletrônicas e pela rapidez da
imagem televisiva. Aos que ultrapassam essa faixa etária, o
centro de interesse não mais giraria em torno dos assuntos
tratados nos livros do autor de “Caçadas de Pedrinho”.
Nesse vácuo e sob esse equívoco que leva à preterição de
sua obra, Monteiro Lobato perde-se. É lido cada vez menos,
malgrado as tentativas de promovê-lo Sintomático é que as
obras infantis de Lobato são reconhecidas como expoentes de boa
literatura, vendem relativamente bem, mas não são lidas com a
freqüência que seria desejável. Mudaram assim, tão
radicalmente, as crianças?
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