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Entrevista com Machado de Assis

A literatura permite os mais altos vôos da imaginação. Pelos livros é possível conhecer a fundo o pensamento de um autor, tornar-se um quase íntimo, saber de suas aspirações, compartilhar suas dúvidas. Ao escrever, o homem expõe-se amplamente, abre a alma aos leitores. Há autores que merecem que se conheça a sua opinião sobre temas relevantes. Machado de Assis é um deles. Ficcionista respeitável, escritor que chega à perfeição, em suas crônicas ele tem idéias firmes, ponderadas, muitas vezes espirituosas, sobre alguns temas.

ArteLivre inova esta semana. E presenteia seus leitores com uma entrevista com Machado de Assis. Surpreso? Isso é possível, sim. Basta retirarmos frases que escreveu em suas crônicas, publicadas em jornais do século passado. Acrescente-se perguntas e voilá: temos uma saborosa entrevista.

Liberdade total, o homem só a tem em pensamento. Então, demos asas à nossa imaginação e criemos juntos uma atmosfera de sonho onde conversaremos com um dos grandes mestres da literatura brasileira.

Imaginemos tarde agradável no Rio de Janeiro do século XIX. Estamos no bairro do Cosme Velho. Sobrados, ruas arborizadas. Há uma vivenda atraente. Entremos: aqui mora um homem de letras. Melhor andarmos em silêncio, os passos devem ser leves para não perturbar o dono da casa. Entre móveis austeros, ele se assenta para escrever. Vês o quarto? Ainda estão ali os leques de D. Carolina, seus sapatos delicados, rendas e bordados, o pente que lhe prendia os cabelos. Caminhemos mais um pouco. Mais adiante, sentado, a cismar, está Machado, a mais poderosa pena da literatura brasileira no século passado. Que bondade seus modos atestam, que doçura traduzem seus olhos. Não te disse que ele não é sisudo como os retratos fazem parecer? Sentemos para ouvi-lo. Ele nos sorri, está cansado de muitas coisas, mas seu pensamento permanece lúcido, e impecável é o seu falar. Observa como ele se enternece e seus olhos brilham quando fala de Dona Carolina. Atenta para a segurança de suas observações sobre os mais diversos assuntos – e não esquece de observar seu finíssimo humor, a crueza com que desvenda a alma humana.

        Descobre comigo esse homem especial. Mergulha em suas palavras – não a dos romances e coletâneas de contos – e verás quando sobre ele ainda desconheces. Prova, sem temor, essa descoberta, que é só prazer e encantamento.

 

ArteLivre. Durante muito tempo o Sr. fez crítica literária e teatral. Qual sua opinião sobre o exercício da crítica?
MA. Exercer a crítica afigura-se a alguns que é uma fácil tarefa, como a outros parece fácil a tarefa do legislador; mas, para a representação literária, como para a representação política, é preciso ter alguma coisa mais que um simples desejo de falar à multidão. Infelizmente é a opinião contrária que domina, e a crítica, desamparada pelos esclarecidos, é exercida em geral pelos incompetentes.

AL. Quais as condições essenciais para exercer a crítica?
MA. A ciência e a consciência.

AL. Que pensa o Sr. do Indianismo, na sua época chamado também de “escola americana”?
MA. Não nos parece que se deva chamar escola ao movimento que atraiu as musas nacionais para o tesouro das tradições indígenas. Escola ou não, a verdade é que muita gente viu na poesia americana uma aberração sem graça, nem gravidade. Até certo ponto tinha razão: muitos poetas, entendendo mal a musa de Gonçalves Dias e, não podendo entrar no fundo do sentimento e das idéias, limitaram-se a tirar os seus elementos poéticos do vocabulário indígena; rimaram as palavras e não passaram adiante; os adversários, assustados com a poesia desses tais, confundiram no mesmo desdém os criadores e os imitadores.

AL. Apenas esse motivo levou à condenação do indianismo?
MA. Não, havia um outro motivo para condená-lo. Supunham os críticos que a vida indígena seria, de futuro, a tela exclusiva da poesia brasileira, e nisso erravam também, pois não podia entrar na idéia dos criadores obrigar a musa nacional a ir buscar todas as suas inspirações no estudo das crônicas e da língua primitiva. Felizmente o tempo vai esclarecendo os ânimos; a “poesia dos caboclos” está completamente nobilitada; os rimadores de palavras já não podem conseguir o descrédito da idéia, que venceu com os autores de I-Juca-Pirama e Iracema.

AL. Em que nível se dá a discussão literária no Brasil?
MA. A discussão literária no nosso país é uma espécie de steeple-chase, que se organiza de quando em quando; fora disso, a discussão trava-se no gabinete, nas ruas e nas salas. Não passa daí.

AL. A enxurrada de maus poetas afeta de algum modo a poesia?
MA. A poesia deixa de ser a misteriosa linguagem dos espíritos só porque alguns maus rimadores foram assentar-se ao pé do Parnaso?

AL. Que sente um escritor ao saber, como no seu caso, que milhares que lhe leram a obra votam-lhe extrema afeição?
MA. Há desses amigos que um escritor tem a fortuna de ganhar sem conhecer, e são dos melhores. É doce ao espírito saber que um eco responde ao que ele pensou, e mais ainda se o pensamento, trasladado ao papel, é guardado entre as coisas mais queridas de alguém.

AL. Entretanto, algum tempo após a morte dos escritores, sobrevém para alguns um período de esquecimento...
MA. Sim. Todos falaram da morte de Dumas Filho como de um luto público. A moda passou como passaram a de Dumas pai, a de Lamartine, a de Musset, a de Stendhal, a de tantos outros. Às vezes, o eclipse chega a ser esquecimento e ingratidão. Musset – que Heine dizia ser o primeiro poeta lírico da França – pedia aos amigos, em belos versos, que lhe plantassem um salgueiro ao pé da cova. Possuo umas lascas e folhas do salgueiro que está plantado na sepultura do autor de “Noites”, e que Arthur Azevedo me trouxe em 1883; mas não foram amigos que o plantaram, não foram sequer os franceses, foi um inglês.

AL. Um inglês?
MA. Parece que, indo fazer a visita aos mortos, doeu-lhe não ver ali o arbusto pedido e cumprir-se o desejo do poeta. Donde se conclui que os ingleses nem sempre ficam com a ilha da Trindade. Há deles que dão para amar os poetas e seus suspiros. Também há os que, por amor das musas, fazem-se armar soldados. Um deles, quando os gregos bradaram pela independência, pegou em si para ajudá-los e não chegou ao fim; morreu de doença em Missolonghi. Era par de Inglaterra; chamava-se, creio eu, Georges Gordon Noel Byron. Tinha escrito muitos poemas e versos soltos e feito alguns discursos...

AL. Já que falamos em morte, que pensa o Sr. sobre a cremação de cadáveres?
MA. Toda gente que conheço repele a idéia de ser queimada. Ninguém abre mão de ir para baixo da terra integralmente, deixando aos amigos póstumos do homem o ofício de lhe comerem os últimos bocados. São gostos, são costumes.

AL. E quanto ao senhor?
MA. De mim, confesso que tal é o medo que tenho de ser enterrado vivo, e morrer lá embaixo, que não recusaria ser queimado cá em cima. Poeticamente, a incineração é mais bela. Vêde os funerais de Heitor...

AL. Ainda a morte: foi difícil sobreviver à D. Carolina?
MA.
Com Carolina foi-se a melhor parte de minha vida, e aqui estou só. Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo; mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada. Éramos velhos, eu contava morrer antes dela. Aqui me fico, por ora na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei muito tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará.

AL. Certa vez, o Sr. escreveu em “A Semana” sobre o suicídio de Raul Pompéia. Que pensa o Sr. sobre o suicídio?
MA.
Esse velho tema renasce sempre que um homem dá cabo de si, mas logo é enterrado com ele, para renascer com outro. Velha questão, velha dúvida.

AL. Sua opinião sobre o mundo...
MA.
O mundo é um par de suspensórios. Quem põe o nariz fora da porta vê que este mundo não vai bem. A razão do meu receio é a crença que me devora de que o mal estava acabado, a paz sólida, e as próprias tempestades e moléstias não seriam mais que mitos, lendas, histórias para meter medo às crianças.

AL. A que o Sr. atribui tantos males que ocorrem na Terra?
MA.
Desconfio que há algum plano divino, oculto aos olhos humanos. Talvez a terra esteja grávida. Que animal se move no útero desta imensa bolinha de barro, em que nos despedaçamos uns aos outros? Não sei; pode ser uma grande guerra social, nacional, política ou religiosa, uma deslocação de classes ou de raças, um enxame de idéias novas, uma invasão de bárbaros, uma nova moral, a queda dos suspensórios, o aparecimento dos autos.

 

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