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SEMINÁRIO SOBRE A LÍNGUA PORTUGUESA:
DESAFIOS E SOLUÇÕES
Realizado na sede do Centro de Integração Empresa-Escola, São
Paulo,
SP, em 31 de maio de 1999.
CONFERENCISTA: Acadêmica LYGIA FAGUNDES TELLES
Tema: Língua Portuguesa: Uma Paixão.
Transcrição: Tânia Lúcia Oliveira Barreto
Revisão: Anna Maria Leão Teixeira
ANA PAULA (Apresentadora)
Passamos agora a palavra à ilustre acadêmica Lygia Fagundes
Telles.
Senhores Antonio Olinto, Lêdo Ivo e Geraldo
Vidigal; senhoras,
senhores e jovens.
O título de minha palestra, que não é palestra,
pois será um depoimento, tem um nome muito pomposo:
Língua portuguesa: Uma paixão. Não pode ser uma
palestra. É um depoimento, que farei com paixão,
todo depoimento tem que ser apaixonado, e espero que
o farei com brevidade. A paixão é sempre breve, então,
vamos lá.
Sendo um depoimento, tornar-se-á uma espécie de
confissão em relação à minha paixão por esta língua
com a qual estou falando neste instante, língua que nós
amamos, também, porque, justamente, dizia Fernando
Pessoa, olhem a poesia: "A língua portuguesa
é a minha pátria. A minha pátria é a língua
portuguesa." Então, a minha pátria é esta língua
e esta é a minha paixão. Portanto vamos lá à
confissão.
Era eu uma jovem, nem jovem, era ainda uma menina,
já tinha minhas ambições literárias, quando vim
a ler um soneto de Olavo Bilac, dedicado à língua portuguesa.
Bilac, vocês sabem, foi um grande poeta parnasiano,
da escola parnasiana que veio após a escola romântica: "a
escola de morrer cedo" - conforme dizia Carlos Drummond de
Andrade. Eu achei que esse nome que Carlos Drummond de Andrade
deu para a escola romântica era
"fulgurante"! Assim, vou contar, rapidamente, por que
Carlos Drummond deu tal nome aos jovens da escola
romântica.
Eu estava fazendo uma conferência no Rio de
Janeiro sobre Álvares de Azevedo, a minha paixão na escola romântica
paulista, e lá estava, assistindo à conferência,
Carlos Drummond de Andrade, quando um jovem interferiu: -
Dona Lygia, a senhora disse que Castro Alves morreu com 24 anos,
Álvares de Azevedo com 21, Fagundes Varela, completamente em
convulsões, delirium tremens e tal, com 33 anos, Gonçalves
Dias, o indianista extraordinário, esse um pouco
mais velho, aos 42 ou 43 anos, num naufrágio; e sem esquecer
Casimiro de Abreu: "Ai que saudades que eu
tenho da aurora da minha vida..."
Então, o rapaz perguntou: - A senhora não está
exagerando? - Eu disse: - Exagerando como, meu
jovem? Isso é a própria conferência que eu estou
fazendo no Rio de Janeiro. Ele disse: Mas, dona Lygia, todos
eles morreram assim mocinhos? A senhora não está dando um
pouco de ênfase excessiva? - Dei uma risada e
respondi: - Eu lamento, mas morreram todos com essa
idade assim, mais ou menos jovensíssimos, e como
diria Mário de Andrade em relação ao Azevedo, esse, então,
morreu virgem - 21 anos: - Era virgem - dizia Mário
de Andrade, e eu acredito.
Carlos Drummond achou muita graça naquela intervenção desse
moço e, quando terminou a conferência, ele me disse: -
Lygia, eu vou dar um nome para essa escola: "a escola do
morrer cedo". Beleza! Não é? Só um poeta
poderia dar um nome tão lindo para a escola romântica.
Então, voltando, "a escola do morrer cedo", o
romantismo, antes, esses poetas. Em seguida, vem a escola
parnasiana, eram os poetas mais bem penteados, a
gravata no lugar, mais limpinhos, mais arrumados. Escola
parnasiana - Olavo Bilac. Assim, dizia eu que,
quando era muito menina, li esse soneto de Olavo
Bilac: "Última flor do Lácio inculta e bela, que é,
a um só tempo, esplendor e sepultura...", e fiquei muito
impressionada. Então, a língua na qual eu vou escrever (já
tinha minhas ambições, eu teria 10, 12 anos, por aí) é esta
língua, esplendor e sepultura? Vou escrever numa língua
que é sepultura? Fiquei muito impressionada e fui
falar com o meu pai, meu pai tinha que resolver as
questões todas.
- Papai, que negócio é esse, então, essa língua...?
Por que você com mamãe não foram ter esta pobre menina na
França, na Inglaterra? Eu escreveria em francês, escreveria...
- Olha a colonizada! Menina colonizada! Eu queria era a língua
do Primeiro Mundo. Meu pai disse: - Minha filha, se
você chegar a escrever bem um dia, e eu espero que
sim (os pais têm tanta confiança na gente, não é?),
não precisa ser francês, alemão, espanhol. Você
ficará na nossa língua mesmo. - Mas, esplendor e sepultura,
papai? - É isso mesmo. Vai dormir, vai fazer sua lição e
chega. - Meu pai encerrava as coisas também assim.
Pronto.
Muito tempo depois, estava eu na Faculdade de
Direito, já estudante, já escrevendo os meus primeiros contos,
quando voltei ao soneto de Bilac, porém voltei com uma outra
força e com uma outra interpretação: é que eu
estava gostando da minha língua, estava gostando desta
língua portuguesa. Estava me apaixonando por ela, enquanto
escrevia os meus textos, pelos quais me apaixonava.
Eu escrevia com paixão. Língua portuguesa - uma paixão! Eu
escrevia com paixão. Relendo esse soneto de Olavo Bilac,
deparei com o verso que me turbilhonou,
completamente: "Última flor do Lácio inculta e bela, que
é, a um só tempo, esplendor e sepultura". Em seguida:
"Amo-te assim, desconhecida e obscura". Aí
comecei a chorar, porque achei aquilo tão belo.
Amo-te assim, exatamente, a língua desconhecida e
obscura. Obscura! Meu pai não vivia mais, para eu lhe fazer
essas confissões. Me apaixonei pela língua, e nesta paixão e,
com esta paixão, estou vivendo até hoje. Me
perguntam, às vezes: - Se você não pudesse mais
escrever, você morreria? - Eu respondo: - Não morreria, mas
ficaria tão triste, que seria como se tivesse morrido.
Continuei escrevendo, continuo escrevendo e, para
esse ofício, que é o ofício de escrever, não gosto de definições,
evito definições, porque elas são como coletes,
fecham, abotoam, apertam as coisas e encerram muito
o peito, a gaiola, como se dizia antigamente,
"a gaiola do peito". Fecham muito essa gaiola, que
devia ser livre. Não gosto das definições, mas
esta acho perfeita. A vocação é uma vocação.
Chamare, vocare, quem falou em latim, Lêdo Ivo?
vocare, chamado, vocare, chamado, chamado, chamado. Vocação,
vocare, vocação é a felicidade de exercer o ofício
da paixão. Não existe uma definição mais perfeita do que
esta, que eu nem sei mais de quem é, deve ser de um francês.
Esqueci, faz tanto tempo.
Mas vocação é a felicidade de exercer o ofício
da paixão. Se eu estou apaixonada, estou exercendo esse ofício
com paixão. Tem uma coisa ainda: quando eu era jovem, quando
comecei a escrever, achava que falar em vocação
trazia nisso uma certa arrogância. - Por que você
escreve? - me perguntavam aqueles entrevistadores,
jornalistas e tal. Aquela mocinha e tal. É preciso dizer que
comecei a escrever na idade da pedra lascada, havia
muito preconceito em relação à mulher, ao sexo
feminino, ao qual eu pertenço. Portanto, havia uma
certa ironia, quando vinham alguns jornalistas com o lápis, com
a caneta, perguntar: - Por que a senhora escreve?
Eu tinha algum pudor de dizer: eu escrevo porque
esta é a minha vocação, porque, na minha pobre cabeça,
achava que vocação inclui sucesso; eu achava que
era arrogante dizer: eu escrevo porque é a minha
vocação. Ficava constrangida, eu dizia: escrevo porque gosto,
não falava em vocação.
Com o tempo, olha o tempo maravilhoso, comecei a
entender que, na vocação, não está incluído o
sucesso. Não, não está! Fiquei felicíssima: não
está incluído o sucesso, você pode ter vocação,
e no entanto, passar a sua vida trabalhando, fazendo
uma mesa, fazendo um
relógio, uma casa, um edifício, sem conseguir
sucesso.
Mas a alegria, a paixão dentro de você, fazem com
que você dê o melhor de si mesmo, e agora estou
falando como jogador de futebol: - Dei o melhor de
mim mesmo, suei a camisa. Pois é. Isso acontece quando
você está escrevendo, dentro daquele instante em que você
escreve, em que você trabalha, em que você se entrega à sua
paixão. Olha a paixão. (...)
Leia a continuação desse admirável e delicioso depoimento de
LYGIA
FAGUNDES TELLES em: NOSSA LÍNGUA_NOSSA PÁTRIA - Uma página a
serviço da Língua Portuguesa, da Educação e da Literatura
Brasileira.
http://intervox.nce.ufrj.br/~edpaes
E-Mail: nlnp@rionet.com.br
Responsável: prof. Eduardo F. Paes
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