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Lya Luft
Contos de fadas! Os terríveis contos de fadas - com suas
tramas sinistras, bruxas perversas e belas princesas - povoaram
a infância da escritora Lya Luft. As doses maciças de fantasia
marcaram para sempre o espírito da menina, forjando os
elementos que mais tarde iriam predominar em suas obras: o mistério,
o encantamento das narrativas onde a virulência atravessa o
veio das emoções humanas e desemboca em metáforas malignas.
Ela se considera mais romancista que poeta. Escreve depois
de estruturar na cabeça, por um longo tempo, as matrizes de
suas obras. Na poesia é contida, pessoal; no romance se
expande. Os escritos da juventude, nem faz questão de reeditar,
mas seja em prosa ou em verso, seus textos são obsessivamente
transparentes. Lya faz absoluta questão de ressaltar que sua
linguagem é deliberadamente clara, limpa. “Creio até que sou
um pouco pobre de vocabulário. Realizo um esforço sistemático
de tornar minha linguagem a mais simples possível. Não quero
que ela seja uma barreira entre o que desejo comunicar e o
leitor”, diz, modesta.
Sob o brilho das palavras é sempre possível encontrar em
Lya Luft um poderoso canto de mulher. É assim nos poemas de seu
livro “O lado fatal”, escrito pouco depois da morte de Hélio
Pellegrino, com quem foi casada por dois anos e três meses. Já
em seu romance “Exílio” é possível encontrar anões
misteriosos, a temática da loucura e do infortúnio percorrendo
os dramas familiares submersos, o clima predominantemente
sinistro de suas narrativas – tudo operando hipnótica sedução
sobre o leitor. A trama apanha-o geralmente de surpresa e enlaça-o
para sua dimensão torturada. Pena que essa obra límpida e
envolvente é pouco conhecida dos brasileiros.
Lya divide sua carreira literária em duas partes: a fase
“adolescente”, quando ainda tateava as estruturas literárias
e se sentia insegura para desenvolver os assuntos que hoje compõem
os seus livros; e a fase madura, de depois dos 40 anos, quando
adquiriu segurança para compor suas histórias a partir de temáticas
perigosas, como conturbadas relações familiares, os traumas da
infância e suas seqüelas na vida adulta..
Tradutora de Rainer Maria Rilke, Bertolt Brecht e Virgínia
Woolf, Lya também teve seus livros publicados no exterior. “O
quarto fechado” Já foi publicado nos Estados Unidos; “Exílio”
saiu na Inglaterra; “As parceiras” e “Reunião de família”
foram traduzidos para o alemão.
“Sou uma pessoa com um olho triste que escreve e um
olho alegre que vive; escrevo para tentar entender a vida, o
mundo”, define-se Lya Luft, para afastar a impressão de
mulher amargurada e sofrida que suas personagens passam.
O olho triste de Lya capta com exatidão o universo
conturbado das pessoas em crise, sob a densa névoa da incerteza
desesperadora, ou sob os pesados braços do passado aterrador.
Em “Exílio”, esmiúça a vida de uma mulher de meia-idade,
talvez um pouco mais, que se exila por uma semana na Casa
Vermelha – pensão de segunda categoria – para
reorganizar-se. Quer dar ao amante o tempo necessário para
estruturar a vida, a fim de que possam morar juntos. Ela tinha
um filho, ele também; um filho com graves problemas.
Na Casa Vermelha a personagem convive, em lances de amor
e raiva, com um velho amigo, um anão que, na infância dela,
foi decisivo para ajudá-la a superar o suicídio da mãe –
bonita, distante, alcoólatra; matou-se com um tiro. A
personagem ainda criança entrou no quarto da mãe, viu o irmão
dormindo com o seio materno entre os lábios e também deitou-se
ao lado da morta, sem perceber o que se passava, até ser
acordada com o desespero da família.
O irmão enlouquece, ela visita-o com certa freqüência
numa casa de recuperação; angustia-se com a condição dele e
com a sua também.
Ela fascina-se com a presença poderosa da densa
floresta, bem próxima á Casa Vermelha. Mas a floresta é uma
reserva. Não se pode entrar. Lya Luft relata, em primeira
pessoa, a semana decisiva dessa mulher rejeitada pela mãe
suicida. E a trama prossegue.
Mas
Luft faz questão de destacar que seus romances não são
autobiográficos. Aliás, de autobiográfico, mesmo, entre suas
obras, apenas “O lado fatal”, onde fala de sua vida com Hélio
Pellegrino, das doçuras dessa convivência apaixonada, do drama
da morte interferindo numa relação gratificante, um corte súbito
na felicidade alcançada. “Não tivemos o tempo da monotonia,
do desgaste”, diz a autora, que já foi casada com Celso Pedro
Luft. A morte inesperada do amado Pellegrino talvez tenha
deixado como conforto a sensação de um amor intemporal, porque
persiste – e que parece eterno porque supera a vida e s
uas dilacerantes surpresas.
O
Lado Fatal
Deus
(ou foi a Morte?) golpeou com sua pesada foice o coração do
meu amado (não se vê a ferida, mas rasgou o meu também). Ele
abriu os olhos, com ar deslumbrado, disse bem alto meu nome no
quarto de hospital e partiu.
Quando
se foram também os médicos e suas máquinas inúteis, ficamos
sós: a Morte (ou foi Deus?) o meu amado e eu. Enterrei o rosto
na curva do seu coração emudecido e o meu, varados por
essa dourada foice. Por onde vou deixo os rastros de um sangue
denso e triste que não estancará jamais.
O meu amado
tinha tantas manias: perdia canetas, lápis, chaves. Houve um
livro que comprou três vezes em um mês: depois encontramos
todos e mais um sob velhos jornais. Mandei fazer uma estante
nova para organizar seus livros: mas quando ele se foi, mas que
livros havia ali de novo jornais. Nunca sabia bem por que os
guardara. Eram parte do seu ninho, como nossos lençóis e os móveis
da sala. Não conseguia sentar-se mais que meia hora para
escrever: vinha ao meu escritório, usava de pretextos para me
distrair, dava um beijo, fazia confidências, comentava assuntos
do dia. Quando me via triste, dizia entre compassivo e magoado:
”Você hoje está numa melancolia profunda?” Certa vez
discutimos, e ele deixou sobre minha máquina de escrever um
bilhetinho: “Hélio Pellegrino ama Lya Luft.” Nunca tivemos
mais que vinte anos.
“A
morte, velha amiga, me sorri: agora tem do seu lado aquele que
me foi tudo nesta vida. Tem mãos macias a velha senhora, traiçoeiras
e leves mas reveladoras: porque um dia me recolherá também
para debaixo do seu manto e haverá esplendor.”
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