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BORGES
Rey Vinas
“Não
criei personagens. Tudo o que escrevo é autobiográfico. Porém,
não expresso minhas emoções diretamente, mas por meio de fábulas
e símbolos. Nunca fiz confissões. Mas cada página que escrevi
teve origem em minha emoção”
(Jorge Luís Borges)
Ainda chove quando termino de ler estes poemas de Borges e um
dos contos rígidos do viejo brujo.
O que toca, o que encanta de imediato, é a simplicidade do
verso, a precisão das palavras inesperadas, essa habilidade mágica
de dizer as coisas simples e sabiamente. A frase exata denuncia
o esforço da comunicação desejada até a última gota, como
transparência e elucidação.
Há
magníficos autores cujo entendimento só é possível após um
esforço massacrante, que asfixia o leitor, embora na sua forma
de poetar haja sublimação e arrebatamento, embora produzam
textos de qualidade inegáveis; outros há que conseguem aliar
à competência estilística uma capacidade de comunicação
impressionante, que não se esgota, que se abre sempre para
significados precisos e ao mesmo tempo múltiplos.
Jorge
Luís Borges é desses autores que conseguem comunicar
esplendidamente, que conseguem falar de maneira inequívoca às
mentes e aos sentimentos. Era iluminado e luminoso, embora cego.
O
menino Borges decidiu a certa altura ser escritor. Tomou da pena
e do lápis e, aos oito anos de idade, escreveu seu primeiro
conto: La visera fatal.
Oitenta anos mais tarde, mesmo cego, velho, encurvado sob o peso
da idade e sob o signo da descrença, ainda prosseguia ditando
palavras, Primeiro para a mãe, Leonor; depois para a secretária
particular, amiga e finalmente esposa, Maria Kodama. Seguiu
publicando livros que ditava por inteiro, cada vez mais belos.
Esperava o Nobel, que não chegou até a sua morte em 1986.
Traduziu
aos nove anos O Príncipe
Feliz, de Oscar Wilde, que foi publicado no jornal “El País”,
de Buenos Aires. Essa precocidade não deveria espantar: mesmo
antes de falar espanhol, sua avó paterna lhe havia ensinado a
falar inglês. Tinha fascinação pelo idioma ianque e, mais
tarde, ao lado de Maria Kodama, principiou a estudar o inglês
antigo. Dizia ter lido pouco: Dickens, Tolstoi, Eça de
Queiroz...; dizia ter escrito alguns livros, somente; dizia que
se tivesse nascido séculos antes sequer seria lido; quem sabe,
ignorado. Autores eram, para ele, Dante, Shakespeare, Virgílio...
Depois
de participar do movimento vanguardista literário espanhol
denominado de ultraísmo, Borges (ao retornar à Argentina)
filiou-se ao movimento modernista. Durante aproximadamente sete
anos escreveu uma série de ensaios, contos e poesias, mas só
em 1928 a crítica rendeu-se ao talento do tigre argentino. Sua
obra refletia a erudição conquistada desde a infância, sob a
influência da mãe Leonor, da avó paterna e do pai advogado e
professor, Jorge Guillermo Borges.
“Não,
não tenho nenhuma sabedoria”, corrigia o Bruxo quando lhe
comentavam ser último sábio sobre a Terra, arrematando: “Li
e reli quase sempre os mesmos livros”. Sabia do que falava,
com ironia maleável na voz pungente; era sábio sim.
Perdera
a vista – como leitor – no ano de 1955, o que o fazia
lembrar uma frase de Steiner: Quando algo te acaba, precisas
saber como iniciar. E Borges dizia então ter voltado ao princípio,
com os estudos do inglês antigo e do islandês. Maria Kodama
era de origem japonesa e, durante certo tempo, Borges passou a
aprender também japonês.
Muitas vezes afirmou que tinha convicção de que seu
destino era ser escritor, mas que não esperava ser conhecido:
“No fundo, queria ser um escritor obscuro, quase imperceptível”.
A afirmação parece paradoxal, levando-se em conta que Borges
desejava o Nobel e a ele aspirou até o último momento. Essa não
parece ser a postura de um autor que buscava o anonimato
perfeito.
Afirmava freqüentemente
o seu ateísmo. Admirava o pai, também ateu, e revelava que a
felicidade mesmo só conseguia indiretamente, pelo trabalho.
Solitário Borges. Falava da solidão como de uma aliada às
avessas de sua criação, espécie de segunda companheira,
sombra sempre em volta dos livros acumulados sobre a mesa,
empilhados nas estantes: “Passo boa parte do meu tempo só,
conheço poucas pessoas. Então fico planejando poemas, narrações,
para ditá-los a Kodama no dia seguinte ou à noite, ou a
qualquer hora”.
A
consagração de Borges só veio em 1935, depois da publicação
de seu primeiro livro de contos História
Universal da Infância. O universo fantástico de suas
narrativas viria a ser inaugurado mais tarde, a partir do volume
Ficções, alcançando
o ápice em O Aleph.
Para Borges, esses dois livros eram sua bibliografia.
Com o passar dos anos, quando a cegueira se fez completa,
a mãe Leonor passou a tomar conta de escritor, lendo para ele e
escrevendo o que ditava. Em 1967, Borges casa-se com uma amiga
de infância, Elsa Milian, mas o casamento não dura muito.
Leonor
morre em 1975. O escritor ainda consegue publicar alguns livros,
ajudado por amigos. Sentindo a ausência da mãe, revela que,
embora nunca tivesse pensado nisso, Leonor fora quem
pacientemente, quieta e efetivamente, promovera sua carreira
literária. Kodama tornou-se sua secretária particular em 1981.
Casaram em 1986, no Paraguai, pouco antes do escritor morrer de
câncer no fígado.
Muitas
vezes foi acusado de intelectual de direita. Mas ligava pouco
para isso. Se dizia anarquista, um homem que não tinha nada a
ver com a política. “Não conheço nenhum político, não sou
filiado a nenhum partido, sou teoricamente anarquista – o máximo
de governo - mas isso é quase impossível”, defendia.
Mesmo sob a mais completa cegueira, Borges em muitos
momentos foi profético, como quando comentou – durante o
governo Alfonsin – a prisão e julgamento dos militares
torturadores argentinos, responsáveis pelo desaparecimento de
milhares de civis: “No que se crê é que vá haver sentenças
severas, e depois de algum tempo uma espécie de anistia para
esses homens. Então tudo não passará de uma farsa”.
Cinco
meses antes da morte de Borges, Maria Kodama concedeu entrevista
à Gaceta del Libro, de Madri, falando das constantes viagens
que vinha fazendo com o escritor pelo mundo. Segundo ela, Borges
demonstrava estar melhor do que nunca, divertido, entusiasta,
passando no máximo dois ou três dias em cada lugar. Não
imaginava que poderia passar seus últimos anos pulando de um
canto para outro, não dando importância nem à cegueira, nem a
velhice.
“Aqui
sob os epitáfios e as cruzes não há quase nada. Aqui não
estarei eu. Estarão meu cabelo e minhas unhas, que não saberão
que o resto morreu, e seguirão crescendo e serão pó”
(Jorge Luís Bo
rges)
INSTANTES
Se
eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de
cometer mais erros.
Não
tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria
mais tolo ainda do que tenho sido, na verdade bem poucas coisas
levaria a sério.
Seria
menos higiênico.
Correria
mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria
a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos
lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu
fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada
minuto da vida, claro que tive momentos de alegria.
Mas
se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons
momentos.
Porque,
se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não
percas o agora.
Eu
era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas. Se
voltasse a viver, começaria a andar descalço no começo da
primavera e continuaria assim até o fim do outono.
Daria
mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e
brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela
frente.
Mas
já viram, tenho oitenta e cinco anos e sei que estou morrendo.
(Jorge
Luís Borges)
Na infância pratiquei com fervor a adoração ao tigre; não o
tigre cor de pêssego dos camalotes do Paraná e da confusão
amazônica mas o tigre rajado, asiático, real, que só pode ser
enfrentado pelos homens de guerra, encastelados sobre um
elefante. Costumava demorar-me infindavelmente diante de uma das
jaulas no Zoológico; apreciava as vastas enciclopédias e os
livros de história natural pelo esplendor dos seus tigres.
(Lembro-me ainda dessas figuras: eu que não posso recordar sem
horror o rosto ou sorriso de uma mulher). A infância passou,
caducaram os tigres, e a paixão por eles, mas eles ainda
permanecem em meus sonhos. Nessa lembrança submersa ou caótica,
continuam a prevalecer, e assim: adormecido, um sonho qualquer
distrai-me e eu sei de imediato que é um sonho. Costumo então
pensar: Este é um sonho, uma pura diversão de minha vontade e,
já que tenho um poder ilimitado, vou produzir um tigre.
Oh
incompetência! Meus sonhos nunca sabem engendrar a apetecida
fera. Aparece o tigre, isso sim, mas dissecado e débil, ou com
impuras variações de forma, ou bastante fugaz, ou tirante a cão
e a pássaro.
(Jorge
Luís Borges)
A
SEDUÇÃO DO TIGRE
A
PROVA
Do outro lado da porta um homem deixa cair sua corrupção. Em vão
elevará esta noite uma prece ao seu curioso deus, que é três,
dois, um, e se dirá que é imortal. A gora ouve a profecia de
sua morte e sabe que é um animal sentado.
És,
irmão, esse homem. Agradeçamos os vermes e o esquecimento.
HINO
Esta
manhã
há no ar a incrível fragrância
das rosas do Paraíso.
Nas margens do Eufrates
Adão descobre a frescura da água.
Uma chuva de ouro cai do céu;
é o amor de Zeus.
Salta do mar um peixe
e um homem de Arigento recordará
ter sido esse peixe.
Na caverna cujo nome será Altamira
uma mão sem cara traça a curva
de um lombo de bisonte.
A lenta mão de Virgílio acaricia
a seda que trouxeram
do reino do Imperador Amarelo
as caravanas e as naves.
O primeiro rouxinol canta na Hungria.
Jesus vê na moeda o perfil de César.
Pitágoras revela a seus gregos
que a forma do tempo é a do círculo.
Numa ilha do Oceano
os cães de prata perseguem os cervos
de outro.
Numa bigorna forjam a espada
que será fiel a Sigurd.
Whitman canta em Manhattan.
Homero nasce em sete cidades.
Uma donzela acaba de aprisionar
o unicórnio branco.
Todo o passado volta como uma onda
e essas antigas coisas recorrem
porque
a mulher te beijou.
O escritor argentino
Jorge Luís Borges morreu como um dos monstros sagrados da
literatura universal. Deixou uma obra incomparável em língua
espanhola, sobretudo pela capacidade inventiva e pelo poder de
suas metáforas de transcendência filosófica. Nos seus últimos
anos de vida, viajou incansavelmente pelo mundo com a esposa,
Maria Kodama, ex-aluna e secretária particular. Passava no máximo
dois ou três dias em cada lugar, não dando muita importância
nem para a cegueira nem para a velhice. Um tigre.
Mas
houve um tempo de tamanha angústia em que ansiara pela morte, e
com tal sofreguidão que a certa altura afirmou que morrer para
ele era a última esperança. Estava convicto disso. Um dos
poemas feitos em sua homenagem, “Buenos Aires”, fala desse
momento crucial: “...Debaixo da infelicidade a maior esperança:/
morrer/ quando as luzes se apagam/ e sob as sombras da lua/ não
há quase nada”.
Intentava escrever
prefácios para cem livros, ainda assim – sempre que a ele se
referiam como um dos últimos sábios sobre a terra – dizia
“Não, não tenho nenhuma sabedoria. Na verdade li muito
pouco, e escrevi alguns livros, somente”.
Obras
Completas de Borges
·
FERVOR DE BUENOS AIRES, 1923
·
LUNA
DE ENFRENTE, 1923
·
INQUISICIONES,
1925
·
EL
TAMAÑO DE MI ESPERANZA, 1926
·
EL
IDIOMA DE LOS ARGENTINOS, 1928
·
CUADERNOS
SAN MARTÍN, 1929
·
EVARISTO
CARRIEGO, 1930
·
DISCUSIÓN,
1932
·
LAS
KENNIGAR, 1933
·
HISTORIA
UNIVERSAL DE LA INFAMIA, 1935 - A Universal History of Infamy
·
HISTORIA
DE LA ETERNIDAD, 1936
·
EL
JARDÍN DE SENDEROS QUE SE BIFURCAN, 1941 - Haarautuvien
polkujen puutarha
·
SEIS
PROBLEMAS PARA DON ISIDRO PARODI, 1942 - Six Problems for Don
Isidro Parodi
·
EL
JARDIN DE SENDEROS QUE SE BIFURCAN, 1942
·
FICCIONES,
1944
·
DOS
FANTASÍAS MEMORABLES, 1946
·
UN
MODELO PARA LA MUERTE, 1946
·
NUEVA
REFUTACÍON DEL TIEMPO, 1947
·
ASPECTOS
DE LA LITERARA GAUCHESCA, 1950
·
LA
MUERTE Y LA BRÚJULA, 1951
·
ANTIGUAS
LITERATURAS GERMÁNICAS, 1951 (with Delia Ingenieros)
·
OTRAS
INQUISICIONES 1937-1952,
1952 - Other Inquisitions, 1937-1952
·
LOS
ORILLEROS, 1955
·
MANUAL
DE ZOOLOGIA FANTASTICA, 1957 - The Book of Imaginary Beings
(1969)
·
LEOPOLDO
LUGONES, 1957
·
OBRAS
COMPLETAS, VIII 1954-60
·
LIBRO
DEL CIELO Y DEL INFIERNO, 1960
·
EL
HACEDOR, 1960 - The Doer/The Dreamtigers
·
ANTOLOGÍA
PERSONAL, 1961 - A Personal Anthology
·
MACEDONIO
FERNÁDEZ, 1963
·
EL
OTRO, EL MISMO, 1964
·
OBRAS COMPLETAS III, 1964
·
PARA
LAS SEIS CUERDAS, 1965
·
INTRODUCCIÓN
A LA LITERATURA INGLESA, 1965 (with María Esther Vásquez)
·
LITERATURAS
GERMÁNICAS MEDIAVALES, 1966 (with María Esther Vásquez)
·
CRÓNICAS
DE BUSTOS DOMECQ, 1967 - Chronicles of Bustos Domecq
·
EL
LIBRO DE LOS SERES IMAGINARIOS, 1967 - The Book of Imaginary
Beings
·
MUEVA
ANTOLOGÍA PERRSONAL, 1968
·
ELOGIO
DE LA SOMBRA, 1969
·
EL
OTRO, EL MISMO, 1969
·
EL
INFORME DE BRODIE, 1970 - Dr. Brodie's Report
·
EL
CONGRESO, 1971
·
EL
ORO DE LOS TIGRES, 1972 - The Gold of Tigers
·
Borges
on Writing, 1973
·
OBRAS
COMPLETAS, 1974
·
EL
LIBRO DE ARENA, 1975 - The Book of Sand
·
LA
ROSA PROFUNDA, 1975
·
PRÓLOGOS
CON UN PRÓLOGO DE PRÓLOGOS, 1975
·
LA
MONEDA DE HIERRO, 1976
·
LIBRO
DE SUEÑOS, 1976
·
ANDROGUÉ,
1977
·
ASESINOS
DE PAPEL, 1977
·
HISTORIA
DE LA NOCHE, 1977
·
LA
ROSA DE PARACELSO, 1977
·
TIGRES
AZULES, 1977
·
OBRAS
COMPLETAS EN COLABORARACIÓN, 1979
·
PROSA
COMPLETA, 1980
·
SIETE
NOCHES, 1980 - Seven Nights
·
LA
CIFRA, 1981
·
NUEVE
ENSAYOS DANTESCOS, 1982
·
VEINTICINCO
AGOSTO, 1983
·
OBRA
POETICA, 1923-1977,
1983
·
Y
OTROS CUENTOS, 1983
·
LOS
CONJURADOS, 1985
·
TEXTOS
CAUTIVOS, 1986
·
EL
ALEPH BORGIANO, 1987
·
BORGES, EL JUDAISMO E ISRAEL,
1988
·
BIBLIOTECA PERSONAL, 1988
·
OBRAS COMPLETAS, 1989 (2 vols.)
Links Interessantes
http://www6.ewebcity.com/jlborges/
http://www.zaz.com.br/almanaque/literatura/borges_100.htm
http://www.hum.au.dk/romansk/borges/

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