"Eu
sempre me
fascinei com o matemático indiano Srinivasa Ramanujan. Ele
dizia que para resolver seus intricados teoremas era movido
apenas pela beleza das equações.
Na poesia também é assim. É uma espécie de exercício do não-dizer,
mas que nos dilata de beleza quando acabamos de ler um poema."
(Hilda Hilst)
Rey Vinas
Hilda Hilst morreu
hoje (4/2/2004), de falência múltipla dos órgãos, depois
de uma queda em que fraturou o fêmur, me diz a Sônia,
atravessada daquela melancolia da perda que se nos abate
quando perdemos o rumo, o prumo, o
riso. Os jornais trarão certamente a biografia e alguns
poemas de Hilda; dirão da grandeza de seu texto
desconcertante, de sua beleza enigmática quando jovem, de sua
desistência de quase tudo em favor da literatura, de sua
solidão, de sua dezena de cães, de sua bem-comportada
loucura, etc.
Por isto preferirei tocar em um outro aspecto de
sua vida, um aspecto transversal, digamos, ligado a uma questão
incômoda a mim e certamente a todos os que admiravam as inegáveis
qualidades da escritora monumental que ela era: se era magnífica
a sua escrita, por que tão poucos liam Hilda?
Não é difícil constatar que a liam basicamente
escritores e literatos, alguns especializados nesse negócio
de texto literário. E temos, malgrado, de constatar que Hilda
era a escritora de um "grupo de eleitos", num
sentido infelizmente elitista e perverso, resultado de nossa
condição de país periférico, dependente e quase que apenas
semi-alfabetizado.
Porque para ler Hilda é preciso conhecer
minimamente a literatura e seus meandros, ter pelo menos
lampejos de erudição (olha lá: não é aquela erudição
besta) para perceber, mesmo que intuitivamente, a maestria de
sua arquitetura verbal, o poder contagiante de sua linguagem,
de seu poema - um desafio quase intransponível a nossa estatística
de mais de 50 milhões de
analfabetos (inclua aí, por favor, os analfabetos funcionais,
aquela legião que não consegue entender um parágrafo com
mais de duas frases) e mais de 40 milhões de brasileiros
declaradamente incultos (que não estão nem aí para essa
coisa chamada literatura e suas adjacências).
Resumindo: para ler Hilda precisávamos de um
povo culto (e alerto mais uma vez que falo aqui não da
cultura de perfumaria, voltada à inflação dos egos, mas da
cultura como valor espiritual e de sensibilidade). E apesar de
nossa
vocação para a beleza, de nossa capacidade inata para o
deslumbramento diante dos signos, da fantasia e da surpresa,
estamos cada vez mais distantes, como povo, de compreender o
valor de uma escritora da dimensão de
Hilda.
Estamos por demais ocupados, como nação, em
exportar bananas, madeira e roupas de praia, em dar solução
paliativa a problemas provisórios - que sem dúvida se tornarão
crônicos, porque nos tem faltado o sustentáculo de um país
promissor: um povo verdadeiramente educado, uma juventude não
superficial, capaz de lidar com linguagens complexas e dotada
de
sensibilidade. Mas essa mesma juventude é hoje incapaz de ler
Hilda. Com raríssimas exceções, os jovens não a
suportariam: não foram preparados para isso.
Lembro-me de que, certa vez, pediram-me que
"declamasse" um poema num encontro de bibliotecários
em Brasília. Eu "li" dois textos de Hilda que se
encontram justamente neste site da Artelivre:
"Enquanto faço o verso, tu
decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.
Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os
poetas".
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto".
e
"Dizeis que tenho vaidades.
E que no vosso entender
Mulheres de pouca idade
Que não se queiram perder
É preciso que não tenham
Tantas e tais veleidades.
Senhor, se a mim me acrescento
Flores e renda, cetins,
Se solto o cabelo ao vento
É bem por vós, não por mim.
Tenho dois olhos contentes
E a boca fresca e rosada.
E a vaidade só consente
Vaidades, se desejada.
E além de vós
Não desejo nada. ". (Trovas de muito amor para um
amado senhor)
Estávamos próximos do fim da Era FHC, pelo menos achávamos
isso. Ardíamos em esperança por uma sociedade que viria
finalmente a ser transformada em função de um novo quadro de
valores. E os poemas de Hilda naquele momento
soaram como um estandarte, uma espécie de unção. Um silêncio
comovido apoderou-se do auditório e eu percebi, pela primeira
vez em toda a minha convivência com aquele texto cerebral,
que a mensagem de Hilda havia sido captada intensamente por
uma platéia de certa forma comum ou pelo menos não
especializada.
E me perguntavam: Quem é essa escritora?
Há décadas meu pai me dizia que nada
haverá que possa se opor à aliança entre a competência e a
ternura. Hoje eu somaria a esses elementos a espiritualidade.
Somente quando realizarmos o projeto dessa trindade nada haverá
que nos derrote. E tal como Hilda teremos alcançado alguma
forma embrionária de sublimidade.
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