Hilda Hilst,
essa desconhecida
"Eu
sempre me
fascinei com o matemático indiano Srinivasa Ramanujan. Ele
dizia que para resolver seus intricados teoremas era movido
apenas pela beleza das equações.
Na poesia também é assim. É uma espécie de exercício do não-dizer,
mas que nos dilata de beleza quando acabamos de ler um poema."
(Hilda Hilst)
Enigmática,
a senhora Hilda Hilst. Dona de um texto na maioria das vezes
estranho, instigante, capaz de surpresas cuidadosamente
planejadas. Camaleoa. Com quase quarenta livros publicados,
escrevendo magistralmente desde a prosa de ficção à
dramaturgia, passando por poemas de construção hipermental
(metalurgia de palavras), ainda assim não é suficientemente
conhecida nem estudada.
Densa a sua tessitura, crua mas ao mesmo tempo
poderosa e cálida, como fogo ateado à distância para o
deleite das mãos.
Conhecida principalmente
nos círculos intelectuais paulistanos, Hilda concebeu novelas
onde o poder verbal, literariedade e erudição se mesclam em
resultados desconcertantes.
Em "Com Meus Olhos de Cão", novela que
dá título à coletânea de sua prosa, editada pela
Brasiliense, narra o processo de entorpecimento e desligamento
do mundo porque passa o personagem Amós Kéres, matemático,
poeta. "Matamoros", "A Obscena Senhora D"
e "Qadós" são outros exemplos de poetização da
prosa em Hilda Hilst.
A temática de seus textos foi, durante muito
tempo, o universo imponderável das ações humanas, a
inquietude do ser; a morte, Deus, a finitude, a reflexão e a
ars poética. Mas o tratamento rigoroso da matéria literária
tornou muito densa essa sua literatura - que ao longo de mais
de trinta anos de intensa atividade, ficou restrita a uns
poucos eleitos. Sua poesia, repleta de indagações metafísicas,
acabou conduzindo-a a mergulhos no universo das leituras
da física e da filosofia, que toma como apoio em sua busca de
respostas sobre a imortalidade da alma. Ela anseia descobrir,
mas sem abrir mão da ciência. Foi a preocupação com a
sobrevivência da alma que a levou, nos anos 70, a realizar
uma série de experiências em Transcomunicação
Instrumental, com o intuito de gravar vozes de espíritos.
Hilda deixava gravadores ligados por sua chácara (a Casa do
Sol) e afirma ter captado vozes pronunciando palavras e
fragmentos de frases. Poucos a levaram a sério.
O mesmo não aconteceu na literatura, em que a crítica
se rendeu ao refinamento e profundidade de seus textos.
Carrega até hoje a fama de escritora dificílima. O livro
"Com meus olhos de cão" teve excelente
receptividade, mas apesar de tudo seu texto ainda continuava
sendo "desgustado" somente por uns poucos eleitos
que se permitiam o desafio de entrar na cortina de ferro da
literatura de Hilda Hilst.
Louvada pela crítica, admirada por outros
escritores (entre eles Lygia Fagundes Telles e Caio Fernando
Abreu), mas distanciada do grande público, Hilda queria mais.
Inconformada com a repercussão pálida de seus textos, a
escritora tomou uma decisão surpreendente: depois que leu
pelos jornais que a francesa Regine Deforges, com o açucarado
best-seller "A Bicicleta Azul" pôs na bolsa mais de
10 milhões de dólares, não teve dúvida: "Como é que
eu, com uma cabeça esplendorosa, não consigo nem me
sustentar?". E concebeu "O Caderno Rosa de Lory
Lambi", um escrito pornográfico. Hilda estava convicta,
achava que deveria escrever de maneira diferente para ganhar
dinheiro mesmo: "Textos que todo mundo compreendesse,
colocando a problemática do sexo de maneira nova,
chula". E foi o que fez. O livro foi lançado e fez
sucesso. Hilda, então, escreveu, em pouco mais de dois anos,
dois outros livros na mesma linha: "Contos de Escárnio"
e "Cartas de um Sedutor".
Conseguiu deixar a crítica em quase pânico mas,
boa filha, voltou logo à literatura esplendorosa de sempre.
As novelas de Hilda Hilst são, na verdade, rapsódias, cantos
em grande forma que constituem uma representação poética do
espírito e da realidade. Isto pode ser dito especialmente de
"Com meus olhos de cão" - uma narrativa em prosa lírica
da angústia e da derrelição, um tema constante em Hilda
Hilst. Em A Obscena Senhora D, por exemplo, num exercício de
metalinguagem, o personagem Ehud fala a um outro, Hillé:
"Derrelição quer dizer desamparo, abandono e por que me
perguntas a cada dia e não reténs, daqui por diante te chamo
a senhora D. D de derrelição, ouviu?".
Amor, morte, sonho, sexo, vida agônica. Salvação
e perdição, tempo e eternidade, realidade e fantasia, Deus e
o homem são os elementos vivenciais que passam sob diferentes
roupagens e máscaras ao longo da narrativa descontínua dos
textos de HH. São imagens e sons que nos assaltam como sortilégio
e como um presságio que destila da linguagem crua.
De imediato percebemos a intenção do
estabelecimento de uma nova estrutura de narração, fundada
nos desvario. Há uma razão experimentalista, que não nega
as suas heranças surrealistas: construções irrefletidas,
encadeamentos ilógicos, experimentações formais no âmbito
da prosa:
"Hillé, andam estranhando
teu jeito de olhar.
Que jeito?
Você sabe.
É que não compreendo.
Não compreende o quê?
Não compreendo o olho, e tento enxergar perto.
Também não compreendo o corpo, essa armadilha, nem a
sangrenta lógica dos dias, nem os rostos que me olham nesta
vila onde moro, o que é casa, conceitos, o que são as
pernas, o que é ir e vir, para onde,
Ehud (...)?"
Porém, a natureza
e a verdade poética que Hilda Hilst anseia não se situam no
jogo formal, nos seus limites, sua atenção verbal extrapola
a forma vã, já que: "modo de ser da literatura,
historicamente ligada a uma forma chamada verso, a essência
da poesia não se revela nem quando a situam ao nível da
linguagem metrificada". A poesia é outra coisa. A poesia
é Hilda.
Embora menos complexa, sendo uma obra,
"consumada" - em que as razões experimentais
encontram-se mais ou menos definidas e encontraram forma
definitiva - Com meus olhos de cão lembra-nos o "Igitur",
de Mallarmé. Mas a indecifração de algum elemento que nela
nos inquiete e confunda, porém, estará, via de regra, presa
a um sistema coerente de significado constituindo, pois, um código
que em uma última instância pode ser interpretado em
relativa conformidade com o real, se considerarmos real o delírio,
o sonho, a morbidez... O trauma, enfim.
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