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AUGUSTO
DOS ANJOS
O
amor da humanidade é uma mentira.
É. E é por isso
que na minha lira
De amores fúteis
poucas vezes falo.
O amor! Quando virei por fim a amá-lo?
A poesia de Augusto dos Anjos – paraibano nascido no século
passado – é de um materialismo quase brutal, embora seja no
fundo, obra de um idealista, que não detestava – em absoluto
– o amor, mas queria-o em seu estado impossível, espiritual,
etéreo. Ledo engano de quem tomar o poeta materialista em
filosofia como um materialista nos sentimentos. Augusto, bardo
incomum, estranho, magérrimo, era todo humanidade: leal, cortês,
honesto, coisas raras de encontrar naqueles tempos e ainda hoje.
Mas foi também poeta da morbidade, da descrença, da morte.
É
de Orris a seguinte descrição de Augusto dos Anjos: “Foi
magro meu desventurado amigo, de magreza esquálida – faces
reentrantes, olhos fundos, olheiras violáceas e testa
descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento, por
contraste do olhar doente de tristura, e nos lábios um crispação
de demônio torturado. Nos momentos de investigações suas
vistas transmudavam-se rápido, crescendo, interrogando,
teimando. E quando na narinas se lhe dilatavam? Parecia-me ver o
violento acordar do anjo bom, indignado da vitória do anjo mau,
sempre de si contente na fecunda terra de Jeová. Os cabelos
pretos e lisos aparentavam-lhe o sombrio da epiderme trigueira.
A clavícula, arqueada. Na omoplata, o corpo estrito quebrava-se
numa curva para diante (...). Essa fisionomia, por onde erravam
tons de catástrofe, traía-lhe a psique. Realmente, lhe era a
alma uma água profunda, onde, luminosas, se refletiam as
violetas da mágoa”.
Augusto
dos Anjos publicou um único e afortunado livro, Eu,
obra em que cantou a matéria, idealizando-a, revelando-a sob
uma rutilante (e até rosnante) combinação de palavras por vocábulos
esdrúxulos e cientificistas que concorreram para agravar o seu
pessimismo lacerante. Cantou, como Baudelaire, as misérias da
carne, a putrefação dos corpos, monista violento:
já
o verme – este operário das ruínas
-
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda
a espreitar meus olhos para
roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
(“Psicologia
de um Vencido”)
Na
opinião de Alfredo Bosi, Augusto dos Anjos deve ser visto como
um poeta poderoso, que deve ser mensurado por um critério estético
aberto, capaz de abrigar e reconhecer, além do “mau gosto”
do vocabulário rebuscando e científico a dimensão
cósmica e a angústia
moral de sua poesia. Bosi avalia que a dimensão
cósmica vem em primeiro lugar, porque Augusto dos Anjos
centrava no ser humano, de maneira obsedante, todas as energias
do universo que teriam se encaminhado para a construção do
mistério que é o “eu”.
Ademais,
o evolucionismo de Augusto expressa-se bem em versos como esse:
de “Psicologia de um Vencido”.
Eu,
filho do carbono e do amoníaco
A
postura existencial do poeta, apela ao universo do
distanciamento científico: uma angústia esmagadora cresce e se
avoluma diante da fatalidade que conduz os homens à senda
inevitável da putrefação. Toda carne infalivelmente irá se
decompor um dia. Interpretação poética do cosmos e desespero
particular descambam num lamento das coisas, sentimento
doloroso, a raiz de todas as dores está na vontade de viver:
Triste,
a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do orbe
oriundos,
O choro da Energia abandonada!
É a dor da força desaproveitada
- O cantochão dos dínamos
profundos,
Que, podendo mover milhões de
Mundos,
Jazem ainda na estática do nada!
É o soluço da forma ainda imprecisa...
Da transcendência que se não realiza...
Da luz que não chegou a ser lampejo...
E
é, em suma, o subconsciente aí
formidando
Da natureza que parou, chorando,
No rudimento do desejo!
Poeta,
por isso, formidável, pelo poder de penetração, pelo caráter
enigmático do texto, pela capacidade de revelar estratos
dantescos da alma. A excentricidade desses “acordes lúgubres”
levou muitos dos críticos e amantes da literatura a recriminá-lo
em seu tempo. A começar pelo fato de que não se filiou a
nenhuma escola nem adotou as normas à vazão utilizadas pelos
literatos da época. Tomou como regra de escrita a sua própria,
o seu próprio timbre e voz; seu individualismo apoderou-se da língua
portuguesa e fê-la reverberar a sua angústia, a sua descrença
no amor, na humanidade, na turba.
Para
o poeta do Eu, as forças da matéria, que pulsam em todos os
seres e em particular no homem, conduzem ao Mal e ao Nada, através
de uma destruição implacável; ele é o espectador em agonia
desse processo degenerescente cujo símbolo é o verme:
Ah!
Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!
(“O
Deus Verme”)
Diante
da constatação de que para o homem não há outro destino
senão putrefação e morte (o autor, ao que parece, não cria
em Deus, pelo menos não como o entendem os teólogos), abala-se
a concepção de amor sensual e prazer de Augusto dos Anjos:
Sobre
história de amor o
interrogar-me
É vão, é inútil, é improfícuo, em suma;
Não sou capaz de amar mulher alguma
Nem há mulher talvez capaz de
amar-me
(“Queixas
Noturnas”)
Acerca
do prazer ele diz:
Se
algum dia o Prazer vier procurar-me
Dize
a este monstro que eu fugi de
casa!
Antônio
Houaiss diz a esse respeito: “Eis porque lhe chamo poeta da
morte”, porque não amava nem a Vida nem o Amor. Estava no seu
direito, na sua fatalidade”. Um soneto cabalístico que o
poeta fez pouco antes de sua morte, “Último Número” resume
quem sabe, o seu embate com o cosmo, com a poesia, com a
humanidade:
Hora
da minha morte. Hirta, ao meu
lado,
A idéia estertorava-se... No fundo
Do meu entendimento moribundo
jazia o Último Número cansado.
Era
de vê-lo imóvel, resignado,
Tragicamente de si mesmo oriundo,
Fora de sucessão, extranho ao mundo,
Como o reflexo fúnebre do Incriado!
Bradei:
- Que fazes ainda no meu
crânio!
E o Último Número, astro e
subterrâneo,
Parecia dizer-me: “É tarde, amigo!
Pois
que a minha autogênita Grandeza
Nunca vibrou em tua língua presa,
Não te Abandono mais! Morro
contigo!”
Augusto
dos Anjos morreu muito cedo, aos trinta anos. Deixou uma obra
breve e imperfeita, mas é imperdoável não reconhecer-lhe
entre essas imperfeições o cintilar de uma literatura
contundente e nova, brotada num ambiente inóspito. Orris Soares
diz a respeito de seu único livro: “Eu é um livro de
sofrimento, de verdade e de protestos: sofre as dores que
dilaceram o homem e aquelas do cosmos; e, em relação ao homem
e ao cosmos, diz as verdades aprendidas por indagação e ciência,
protestando em nome dellas, pelo que no homem e no cosmos há de
desconexo, de ilógico, de absurdo Um livro de pensamentos, sem
fantasias nem doidivanices”.
Otto
Maria Carpeaux escreve sobre Augusto dos Anjos
Augusto
dos Anjos não teve sorte na vida: parecia a personificação de
uma fase especialmente infeliz da evolução intelectual do
Brasil, mistura incoerente de uma cultura ou semicultura
bacharelesca, ávida de novíssimas novidades científicas, mal
assimiladas, e dos ambientes das massas populares miseravelmente
abandonadas nas ruas estreitas do Nordeste tropical. Ninguém o
compreendeu, ninguém lhe leu os versos nos cafés
superficialmente afrancesados do Rio de Janeiro, e é conhecida
a cena de um dos seus raros admiradores que leu um soneto de
Augusto dos Anjos a Olavo Bilac e recebeu a resposta desdenhosa:
"É este o seu grande poeta? Fez bem ter morrido!" Foi
uma época de eclipse do sal, de trevas ao meio-dia.
Quem
salvou a fama póstuma de Augusto dos Anjos foi seu povo, o od
Nordeste e do interior do Brasil. A abundância de estranhas
expressões científicas e de palavras esquisitas em seus versos
atraiu os leitores semicultos que não compreenderam nada de sua
poesia e ficavam, no entanto, fascinados pelas metáforas de
decomposição em seus versos assim como estavam em decomposição
suas vidas. Nada menos que 31 edições do seu livro EU dão
testemunho dessa imensa popularidade que é o reverso da medalha
- repeliu os leitores exigentes, de tal modo que, até durante a
fase modernista da literatura brasileira, os versos de Augusto
dos Anjos passaram por exemplos de mau gosto de uma época
superada.
Foram
alguns poucos leitores dedicados que conseguiram reivindicar e
restabelecer a verdadeira grandeza de Augusto dos Anjos: Álvaro
Lins, Antônio Houaiss, Francisco de Assis Barbosa (e, assim
como nos quadros que pintou de altar de igrajas medievais o
pintor ousava colocar no último canto seu auto-retrato, assim
ouso colocar no fim dessa lista meu próprio nome). Lendo e
relendo o EU, sempre descobrimos coisas novas, estranhas e admiráveis.
O mau-gosto da expressões científicas e pseudo-científicas?
Augusto dos Anjos tem o poder extraordinário de revelar um
sentido oculto nos sons dessas palavras bárbaras, que
acrescentam um novo frisson às suas visões tétricas e
profundamente comoventes. Suas rimas surpreendentes e
extravagantes abrem horizontes nunca vistos; parece-se ele com
os metaphysical poets ingleses que não conhecia. Até sabe dar
sabor metafísico a nomes prórpios; e mesmo quem ignora que a
casa do Agra no Recife, no fim da ponte Buarque de Macedo, é o
necrotério, sebte todo termor da morte ameaçadora no verso:
"Recife. Ponte Buarque de Macedo...", tremor devido ao
terrificante e como que definitivo ponto atrás da palavra
"Recife", censura que é a linha divisória entre a
vida e o fim da vida.
Existem
em Augusto dos Anjos inúmeros casos assim, de descoberta de um
sentido novo das palavras. Nem sempre percebemos claramente os
motivos da nossa admiração. É o esclarecimento desses motivos
que devemos, agora, a Ferreira Gullar.
Sua análise estilística da poesia de Augusto dos Anjos é
precisa, sem cair jamais no jargão pseudo-científico dos
pseudo-especialistas. Tem, como ponto de partida, uma indicação
exata da situação literária do Brasil naquele tempo e como
base uma análise sociológica, não menos exata, da vida e
morte e morte nordestina de que Augusto dos Anjos é o poeta.
Mas essa crítica não é só estilística nem apenas sociológica.
O permanente ponto de referência é a psicologia do poeta que
deu a seu livro o título EU. É um trabalho completo.
Também
é completo quanto às referências ao futuro. Augusto dos Anjos
escreveu nas formas parnasianas do seu tempo. Modifica-lhes o
sentido pelas influências de Baudelaire e de Cesário Verde e
por algumas luzes do simbolismo. Mas preanuncia igualmente a
poesia de Carlos Drummond de Andrade e de João Cabral de Melo
Neto, justamente lembrados por Ferreira Gullar.
Quando Augusto dos Anjos morreu, o céu da poesia brasileira
estava escurecido como por trevas ao meio dia. Ninguém o
reconheceu. Hoje, a literatura brasileira parece, outra vez,
escurecida por trevas. Mas quem sabe se não se encontra,
irreconhecido entre nós - ou mesmo longe de nós - o grande
poeta que sabe dizer como este povo sofre e lhe prever uma nova
aurora.
Alguns de seus
trabalhos
VERSOS ÍNTIMOS
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a vespera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se alguém causa inda pena tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija
A IDÉIA
De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegração maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!
Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica…
Quebra a força centrípeda que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!
PSICOLOGIA DE UM VENCIDO
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme este operário das ruínas
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na
frialidade inorgânica da terra!
Links
interessantes
http://www.palavra.com.br/html/augusto_dos_anjos.html
http://www.catar.com.br/usuarios/manoelmar/index.html
http://www.fortunecity.com/victorian/bolsover/236/index.htm
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