Um deus de sapatilhas nasceu aqui.
Por onde passou, deixou rastros de perfeição artística
e de sonhos desfeitos.
Polêmico, atormentado, genial e esquizofrênico, o
bailarino russo Vaslav Nijinsky traz em sua biografia os
ingredientes exatos para compor à perfeição o perfil de um
personagem romântico. Dono de uma personalidade ambígua, para
dizer o mínimo, o mesmo Nijinsky que escandalizava as platéias
com a ousadia de sua arte mostrava-se, fora dos palcos, uma
criatura frágil e dependente. Um deus de sapatilhas que
jamais soube conviver com as limitações impostas pela
convivência social.
Nascido em 1888, Nijinsky iniciou nas aulas de ballet aos
9 anos, levado por sua mãe. O primeiro papel de destaque veio
aos 18 anos, em Le
Pavillon d’Armide. Em 1908 é apresentado ao empresário e
diretor de balé Sergei Diaghilev (1872-1929), através de seu
então namorado, o príncipe Pavel Lvov.
Carismático e de forte personalidade, Diaghilev dirigia
com mão de ferro o Ballets Russes, criado por ele em 1909 com o
objetivo de sacudir o marasmo que acreditava haver feito o ballet
estacionar no tempo. O empresário, que sonhava com a
europeização da dança russa, utilizava àquela época o
talento do coreógrafo Michel Fokine (1888-1942), dos cenógrafos
Leon Bakst /1866-1924) e Alexandre Benois (1870-1960), e
dispunha de estrelas de primeira grandeza, como a legendária
Anna Pavlova (1881-1931).
A apresentação a Diaghilev – um divisor de águas na
vida de Nijinsky – causou forte impressão no rapaz, que
escreveu mais tarde em seu diário: “Não gostei dele por sua
voz segura. Evitei fazer amor com ele mas fingi, porque sabia
que, de outro modo, minha mãe e eu morreríamos de fome”. Há
quem duvide da afirmativa, uma vez que o testemunho de Nijinsky
foi cunhado quando o bailarino já apresentava distúrbios
mentais. Há de se observar, também, que o relacionamento com
Diaghilev havia sido marcado por paixão e desespero. O
rompimento com o empresário é freqüentemente apontado como a
causa que desencadeou o processo de desequilíbrio que arrastou
ao limbo o maior mito da dança de todos os tempos.
A personalidade de Diaghilev não permitia que se lidasse
com muita facilidade com o empresário. Incensado por seus
contemporâneos – sua companhia excursionava por todo o mundo
e recebia colaborações de mestres como Claude Debussy, Maurice
Ravel e Albert Roussel – , corre a lenda de que Diaghilev
tinha verdadeiro horror a doenças e tomava cuidados extremos
para não se contaminar: vivia a limpar as mãos, não permitia
que seus lábios fossem beijados e usava um lenço
imaculadamente limpo para proteger a face. Também é notório o
pavor que sentia de viajar em navios. Por haver uma cigana
previsto que morreria afogado (o que efetivamente acabou
ocorrendo), Diaghilev evitava a qualquer custo aventurar-se ao
mar.
Quando a Nijinsky, apesar de fora dos palcos mostrar uma
personalidade frágil, que buscava o apoio de Diaghilev (e mais
tarde da mulher, Romola) para decisões mínimas, revestia-se de
força descomunal ao encarar a platéia. Aliado a uma técnica
perfeita, que mantinha hipnotizados os espectadores de sua dança,
o carisma do bailarino deu ensejo a transformações
significativas no panorama do ballet de seu tempo.
“Dançar é estabelecer um contato visceral com forças misteriosas da
natureza; é chegar às máximas possibilidades de articulação
do corpo humano em harmonia com os sons em volta. Dança é,
muita além disso: acompanhar a música interior que torna
divino o meramente humano, é ser ao mesmo tempo deus e demônio,
pela sublimidade do movimento”
(Adler Stern)
Nijinsky
amava um sonho
Seu maior triunfo foi elevar a figura masculina à mesma
altura que o elemento feminino nos balés. Em alguns casos,
tanto engenho e arte foram premiados ao manter cativos os olhos
do público. O primeiro papel de destaque de Nijinsky depois que
conheceu Diaghilev foi como Albrecht, em Giselle,
que estreou em Paris em 1911. Com o mesmo papel o bailarino
protagonizou seu primeiro escândalo: instado por Diaghilev,
Nijinsky dançou sem o calção que cobria seu leotard (a malha
justa usada pelos bailarinos). A performance ocorreu em São
Petersburgo, em apresentação a que estava presente a família
imperial.
O coquetel teve efeito imediato e custou a Nijinsky, logo
no dia seguinte, sua demissão do corpo de ballet do teatro
Mariinsky. O mais renomado biógrafo do bailarino, Richard
Buckle, acredita que o episódio pode ter sido um ardil de
Diaghilev para que Nijinsky perdesse o emprego e se tornasse
exclusivo dos Ballets Russes.
No período em que trabalhou exclusivamente para
Diaghilev, Nijinsky protagonizou alguns dos mais importantes ballets
do inicio deste século. Quase todas as peças eram de autoria
de Michel Fokine, então no auge da carreira: Le Espectre de la
Rose, Petrushka, Daphne e Chloé, Narciso e Le Diesu Bleu (esse
com libreto de Jean Cocteau). Foi um período de glória, com
uma sucessão de excursões e êxito. Encorajado por Diaghilev,
por quem mostrava verdadeira adoração, Nijinsky decide que as
coreografias de Fokine já não suprem sua alma sedenta de novas
experimentações e passa a criar seus próprios ballets.
Indignado, Fokine abandona os Ballets Russes.
As três coreografias assinadas por Nijinsky –
“L’Après Midi d’un Faune”, “Jeux” e “A Sagração
da Primavera” – revolucionaram os círculos ligados à dança.
L’Après Midi d’un Faune causou um escândalo sem
precedentes ao ser apresentada em Paris a 13 de maio de 1912. O
público que naquela noite foi ao Théâtre du Châtlet para
assistir à estréia de Nijinsky como coreógrafo teve motivos
de sobra para surpreender-se. Primeiro porque L’Après Midi
mostrava uma sensualidade quase afrontosa para os padrões da época
e depois porque rompia violentamente com as características
fundamentais do ballet tradicional: em vez de tentar aprisionar
os espectadores também com o olhar, nenhum dos bailarinos
olhava de frente, todos mantinham-se de perfil diante da platéia,
tratada com indiferença pelo coreógrafo. Mesmo a mudança de
direção não fazia com que os espectadores pudesse contemplar
os rostos: os bailarinos, com rápidos movimentos, trocavam o
perfil esquerdo pelo direito. A sexualidade transbordava do
fauno protagonizado por Nijinsky que, entretanto, em nenhum
momento dava mostras de gestos sensuais, nem mesmo chegava a
tocar as ninfas/bailarinas que lhe desatavam as amarras da
imaginação. Mas por uma técnica quase sublime, o desejo do
fauno é sensível. O fogo que lhe percorre as veias não está
atestado senão por um sorriso de lascívia quase imperceptível,
mas há paixão, há sexo e uma ousadia suprema. Volúpia de
sonho e delírio. Audácia. Nijinsky escancara o rosto debaixo
da máscara, revela a sensualidade escondida, abre as janelas. O
final do ballet, com o bailarino simulando masturbar-se no
palco, entrou para a história como o maior escândalo da dança
neste século.
As outras duas coreografias – Jeux, sobre uma partida
de tênis, e A Sagração da Primavera - não tiveram o
reconhecimento que o bailarino esperava. Nesta última, sobre a
música do genial Igor Stravinsky, Nijinsky elaborou uma
coreografia que é sua mais arrojada criação. A história do
sacrifício de uma virgem aos deuses russos não é aceita com
facilidade pelas platéias acostumadas a aplaudir o estritamente
conhecido.
Em setembro de 1913, os Ballets Russes excursionam pelo
Rio de Janeiro e Buenos Aires. Por ser uma viagem marítima,
Diaghilev não veio. Atormentado pelos ciúmes, Nijinsky
casou-se precipitadamente com uma das bailarinas da companhia,
Romola de Pulszky, mulher determinada que passa então a
controlar a vida do marido.
Ao saber da notícia, Diaghilev demite Nijinsky, dando
ensejo aos problemas mentais do bailarino. A tentativa de
Nijinsky de montar seu próprio grupo sucumbiu 16 dias após o
início. Durante a I Guerra Mundial esteve internado em um campo
de concentração na Hungria, de onde só saiu em 1916 por
intercessão de Diaghilev. Dançou pela última vez em 1919, aos
29 anos. A aceleração de seu desequilíbrio mental fê-lo
sofrer por aproximadamente dois anos antes que a morte viesse
estender-lhe braços amigos.
Links
interessantes
http://www.abt.org
http://www.staff.dmu.ac.uk/~jafowler/diaghil.html
